O SENHOR É
JUSTO JUIZ
No horizonte traçado por Isaías
11,1-10, contemplamos o broto que
desponta do tronco de Jessé, sinal de uma esperança que vence a paisagem
estéril do exílio e da desilusão. A liturgia aponta para Aquele sobre quem está
relacionado ao Espírito do Senhor: espírito de sabedoria e discernimento, de
conselho e fortaleza, de ciência e temor do Senhor. Não se trata de um poder
que impõe, mas de uma presença que pacifica, reordena, reconcilia. A justiça do
Ungido nasce da proximidade com os pobres e do juízo reto que não se deixa
comprar pelas aparências; seus lábios ferem a mentira e sua cintura está
cingida de fidelidade. Diante desse retrato messiânico, o povo de Deus é
chamado a deixar-se regenerar por essa seiva nova, aceitando que Cristo seja a
raiz e a régua de todos os critérios. Onde Ele reina, o lobo habita com o
cordeiro e nasce uma ética de cuidado que desfaz rivalidades; a paz não é
utopia ingênua, mas fruto do conhecimento do Senhor que enche a terra como as
águas cobrem o mar.
À luz de Mateus a voz austera de João Batista corta a barreira
das obrigações e convoca a conversão. No deserto, onde cessam os ruídos e caem
as máscaras, ele prepara um povo para o encontro com o Mais Forte, Aquele que
batiza no Espírito Santo e no fogo. A liturgia recorda que não basta a linhagem
nem os títulos religiosos: Deus pode suscitar filhos de Abraão das pedras, e o
machado já está posto à raiz das árvores. A chamada é concreta: produzir frutos
dignos de conversão, deixar a fé ganhar corpo em escolhas, relações e
prioridades. A comunidade dominical é convidada a discernir: que frutos
oferecem ao Senhor? O Evangelho não negocia com a duplicidade; o trigo e a
palha serão distinguidos pelo Crivo do Messias, e o fogo que consome a palha é
o mesmo ardor que purifica e acende a caridade nos corações disponíveis.
Entre a promessa de Isaías e a urgência de João, a liturgia faz
ver que a conversão não é um moralismo pesado, mas adesão ao Rei manso e justo,
cujo Espírito recria a humanidade por dentro. Converter-se é mudar o ponto de
apoio: sair do centro para que o Broto seja a raiz; substituir a lógica do
poder pela lógica do serviço; trocar o medo pela confiança em Deus que julga
para salvar e corrigir para curar. A comunidade, ao ouvir hoje, é chamada de
práticas que tornam visíveis o Reino da paz: justiça nas relações de trabalho,
honestidade nos negócios, reverência pela vida frágil, reconciliação nas
famílias, cuidado com a casa comum. O “temor do Senhor” cantado por Isaías não
paralisa, orienta; enraíza a sabedoria que não se ilude com as aparências e se
empenha pelos últimos. Onde o Messias governa, a violência perde a razão, a
palavra se torna veraz, e as diferenças deixam de ser ameaça para voltar a ser
encontro.
Por fim, somos convidados a
acolher o Batizador que vem atrás de João, deixando-se tocar pelo Espírito que
desce e pelo fogo que purifica. O Advento, tempo de espera ativa, pede passos
visíveis: confessionário procurado com humildade, reconciliações assumidas com
coragem, generosidade que partilha, oração que reabre a escuta. A comunidade pode
receber o cinto da justiça e da fidelidade, para atravessar estes dias com
sobriedade e esperança. O Mais Forte já está presente, e a pá está na mão: não
para aterrorizar, mas para separar em nós o que é trigo do que é palha, para
que nada se perca do que nasceu de Deus. Que, alimentada pela Palavra e
antecipada na Eucaristia, a Igreja saia do deserto como povo preparado,
trazendo no rosto a paz do Reino e nas mãos os frutos que o Senhor merece.
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