sexta-feira, 28 de novembro de 2025

HOMILIA PARA O DIA 07 DE DEZEMBRO DE 2025 - 2º DOMINGO DO DVENTO

 

O SENHOR É JUSTO JUIZ

No horizonte traçado por Isaías 11,1-10,  contemplamos o broto que desponta do tronco de Jessé, sinal de uma esperança que vence a paisagem estéril do exílio e da desilusão. A liturgia aponta para Aquele sobre quem está relacionado ao Espírito do Senhor: espírito de sabedoria e discernimento, de conselho e fortaleza, de ciência e temor do Senhor. Não se trata de um poder que impõe, mas de uma presença que pacifica, reordena, reconcilia. A justiça do Ungido nasce da proximidade com os pobres e do juízo reto que não se deixa comprar pelas aparências; seus lábios ferem a mentira e sua cintura está cingida de fidelidade. Diante desse retrato messiânico, o povo de Deus é chamado a deixar-se regenerar por essa seiva nova, aceitando que Cristo seja a raiz e a régua de todos os critérios. Onde Ele reina, o lobo habita com o cordeiro e nasce uma ética de cuidado que desfaz rivalidades; a paz não é utopia ingênua, mas fruto do conhecimento do Senhor que enche a terra como as águas cobrem o mar.

À luz de Mateus a voz austera de João Batista corta a barreira das obrigações e convoca a conversão. No deserto, onde cessam os ruídos e caem as máscaras, ele prepara um povo para o encontro com o Mais Forte, Aquele que batiza no Espírito Santo e no fogo. A liturgia recorda que não basta a linhagem nem os títulos religiosos: Deus pode suscitar filhos de Abraão das pedras, e o machado já está posto à raiz das árvores. A chamada é concreta: produzir frutos dignos de conversão, deixar a fé ganhar corpo em escolhas, relações e prioridades. A comunidade dominical é convidada a discernir: que frutos oferecem ao Senhor? O Evangelho não negocia com a duplicidade; o trigo e a palha serão distinguidos pelo Crivo do Messias, e o fogo que consome a palha é o mesmo ardor que purifica e acende a caridade nos corações disponíveis.

Entre a promessa de Isaías e a urgência de João, a liturgia faz ver que a conversão não é um moralismo pesado, mas adesão ao Rei manso e justo, cujo Espírito recria a humanidade por dentro. Converter-se é mudar o ponto de apoio: sair do centro para que o Broto seja a raiz; substituir a lógica do poder pela lógica do serviço; trocar o medo pela confiança em Deus que julga para salvar e corrigir para curar. A comunidade, ao ouvir hoje, é chamada de práticas que tornam visíveis o Reino da paz: justiça nas relações de trabalho, honestidade nos negócios, reverência pela vida frágil, reconciliação nas famílias, cuidado com a casa comum. O “temor do Senhor” cantado por Isaías não paralisa, orienta; enraíza a sabedoria que não se ilude com as aparências e se empenha pelos últimos. Onde o Messias governa, a violência perde a razão, a palavra se torna veraz, e as diferenças deixam de ser ameaça para voltar a ser encontro.

Por fim, somos convidados a acolher o Batizador que vem atrás de João, deixando-se tocar pelo Espírito que desce e pelo fogo que purifica. O Advento, tempo de espera ativa, pede passos visíveis: confessionário procurado com humildade, reconciliações assumidas com coragem, generosidade que partilha, oração que reabre a escuta. A comunidade pode receber o cinto da justiça e da fidelidade, para atravessar estes dias com sobriedade e esperança. O Mais Forte já está presente, e a pá está na mão: não para aterrorizar, mas para separar em nós o que é trigo do que é palha, para que nada se perca do que nasceu de Deus. Que, alimentada pela Palavra e antecipada na Eucaristia, a Igreja saia do deserto como povo preparado, trazendo no rosto a paz do Reino e nas mãos os frutos que o Senhor merece.

 

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