DEUS VEM
NOS SALVAR
No cenário profético de Isaías somos
convidados a contemplar a promessa de Deus que faz florescer o deserto e
transformar a aridez no jardim. A liturgia anuncia que a criação inteira
participa da alegria da visita divina: o chão menos ressecado, o medo ganha voz,
as mãos frouxas se reanimam, os joelhos vacilantes reencontram firmeza. É o
próprio Deus que vem com retribuição e recompensa, não para esmagar, mas para
salvar, abrir olhos e ouvidos, soltar línguas e passos, e conduzir o povo pela
“estrada santa”, onde os resgatados avançaram entre cantos. A comunidade
dominical é chamada a ver com fé os sinais dessa primavera da graça e a
acolher, no hoje da história, o Deus que consola e refaz. Não se trata de
fantasia religiosa, mas da força real do Senhor que, quando acolhido, converte
luto em dança, desamparo em pertença, dispersão em peregrinação festiva rumo a
Sião.
À luz de Mateus a voz do Batista, enclausurada, envia perguntas
que ecoam no coração da Igreja: “É você aquele que há de vir, ou devemos
esperar outro?” A liturgia aponta nessa pergunta a oração de todos os que,
entre prisões visíveis e invisíveis, buscam certeza e consolação. E o Senhor
responde não com teoria, mas com obras: cegos veem, coxos andam, leprosos são
purificados, surdos ouvem, mortos se levantam, e aos pobres é anunciado o
Evangelho. A comunidade aprende que o Messias se identifica pelos sinais de
misericórdia e pelo primado dos pequenos, e que a bem-aventurança passa por não
se escandalizar de sua mansão. João é declarado grande, profeta é mais que
profeta, e ainda assim a liturgia ressalta o paradoxo do Reino: o menor é
maior, porque tudo é dom e participação na vida do Cristo. A assembleia,
portanto, é convidada a considerar que o Senhor se apresenta nos sinais
discretos que brotam onde a compaixão se torna prática.
Entre a promessa da terra que floresce e o testemunho das obras
do Cristo, o evangelho aponta o caminho da fidelidade concreta. Converter-se,
neste Domingo, é permitir que a esperança molde escolhas, para que os desertos
pessoais e comunitários encontrem água: reconciliações assumidas com coragem,
cuidado diligente com os pobres e vulneráveis, presença junto aos enfermos,
palavra que cura e não fere, compromisso com a justiça que devolve dignidade. A
estrada santa de Isaías se pavimenta com passos de caridade, e os sinais de
Mateus se perpetuam na Igreja quando ela serve sem vanglória e anuncia sem
excluir. A comunidade é chamada a sustentar os que vacilam, a fortalecer mãos
cansadas, a encorajar corações temerosos com o evangelho da proximidade de
Deus. Assim, a promessa se torna experiência e o Advento deixa de ser apenas
espera para voltar a ser participação na chegada do Reino.
Por fim, a assembleia é convidada
a celebrar com gratidão aquele que vem e já está no meio dela, pedindo a graça
de não se escandalizar do estilo humilde de Deus. A liturgia suplica olhos
abertos para ver os sinais, ouvidos atentos para considerar a voz, pés
disponíveis para caminhar na via da santidade e da missão. Que o testemunho de João
inspire coragem profética para a comunidade entender que sua pequenez é sinal
da grandiosidade daquele que vem. E que a promessa de Isaías sustente a alegria
do povo redimido, que retorna a Sião entre cantos, com júbilo eterno sobre a
cabeça. Alimentada pela Palavra e pela Eucaristia, a Igreja sai deste Domingo
com uma mensagem de consolação, levando ao mundo a notícia: Deus vem, e com Ele
o deserto floresce e os pobres recebem boa nova.
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