HOJE
NASCEU O SALVADOR
A liturgia da Palavra, nesta noite
santa, nos leva a contemplar uma aurora que vence as sombras e ilumina os que
caminhavam na escuridão. Ao mesmo tempo proclama que um Menino nos foi dado, sendo
reconhecido como Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai Eterno, Príncipe da
Paz. Não é o brilho das armas que inauguram este Reino, mas a força mansa da
luz que dissipa o jugo, quebra a vara do opressor e multiplica a alegria como
em tempo de colheita. A comunidade percebe que essa promessa não é memória
distante, mas anúncio atual que reergue os cansados, consola os feridos e abre
o futuro aos que perderam a esperança. É zelo do Senhor dos Exércitos que
realiza tal maravilha; por isso, a Igreja se põe de pé para acolher a paz que
não passa, a justiça que não se corrompe, a esperança que não decepciona.
No Evagelho de Lucas, a Palavra conduz a assembleia da
grandiosidade dos decretos imperiais ao silêncio de Belém, onde Deus escolhe
uma pequena porta da pobreza para entrar na história. Um registro do mundo
inteiro contrasta com um recém-nascido envolto em faixas e deitado numa
manjedoura: é ali que a glória se abaixa e o céu toca a terra. Os pastores,
primeiros destinatários da notícia, representam os marginalizados que se tornam
guardiões do mistério; e o coro dos anjos abre a liturgia do Natal: “Glória a
Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens de sua benevolência”. A
Igreja aprende que a glória de Deus é a proximidade que salva, e que a paz
prometida se derrama onde o coração se rende ao Emanuel. O sinal é humilde, mas
definitivo: Deus conosco, pobre entre os pobres, para enriquecer a todos com
sua graça.
Entre a profecia da luz e o nascimento na noite, a homilia
aponta a tessitura do Reino: governo de paz, conselho sábio, justiça para os
pequenos, proximidade misericordiosa. A comunidade é chamada a deixar-se
iluminar por essa luz que julga e cura, que denuncia as trevas e, ao mesmo
tempo, acende caminhos. Receber o Menino é rever prioridades: dar lugar ao
silêncio que escuta, à família que acolhe, à mesa que partilha, à cidade que
protege os vulneráveis; é aceitar que a força de Deus se manifeste na fraqueza
que ama. O título “Príncipe da Paz” se traduz em escolhas concretas: desarmar a
linguagem, reconciliar memórias, cultivar honestidade, cuidar da criação,
aproximar-se de quem sofre. A Igreja, ao celebrar, torna-se sinal: luz posta no
candelabro, casa que abriga, ponte que reconcilia, voz que canta esperança no
meio da noite.
Por fim, a assembleia se coloca
com os pastores a caminho de Belém, para ver o que o Senhor fez e oferece ao
Menino a obediência da fé. A liturgia suplica olhos limpos para considerar o
sinal simples, mãos abertas para acolher e repartir, pés elevados para servir,
lábios prontos para a proclamar: glória a Deus e paz na terra. Que cada casa se
torne manjedoura, cada coração uma faixa de ternura, cada comunidade um coro
que anuncia uma boa-nova. E que, sustentada pela Palavra e pelo Pão da Vida, a
Igreja saia deste Domingo natalino portando a clareza de Isaías e a canção dos
anjos, para que muitos, tocados pela luz, encontrem no Emanuel o descanso da
esperança e a alegria que não se apaga.
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