sábado, 21 de novembro de 2009

IMAGENS QUEBRADAS - MIGUEL ARROYO

COMENTÁRIOS AO LIVRO IMAGENS QUEBRADAS


Sob a ótica do projeto de mestrado:
Policidadania: formação mistagógica do docente



A obra parte do princípio que os tempos mudaram e consequentemente as pessoas se transformaram, os conceitos são outros, as verdades não são as mesmas, daí que a educação e os educadores precisam ser vistos com outros olhares e sobre outros ângulos.
O primeiro elemento tratado no livro consiste em perceber que educar significa tornar o ser humano mais humano. Alias esta expressão parece ter ficado clara nas palavras do Irmão Clemente Ivo Juliato na sessão de abertura do IX EDUCERE, na ocasião ele proferiu a seguinte sentença: “A educação não pode resolver todos os problemas, mas faz parte da solução de todos. Os problemas dependem da transformação da pessoa e este é o campo da educação". Isto parece ser a tônica de outros educadores. Entre eles recordamos Platão e Santo Tomás de Aquino para quem a função da educação é realizar o que o homem deve ser. E Rosseau que dizia: das mãos do professor sai, antes de tudo o ser humano.
Entretanto, o autor da obra em referência parte do princípio que esta tarefa vem tornando-se cada dia mais exigente na medida em que as imagens foram e estão sendo quebradas. Neste novo cenário da educação o convívio com os educandos, cujas imagens se quebraram, pode levar o educador a diminuir sua função de auscultador dos mistérios da vida para se tornar um juiz dos seus atos. Neste sentido a primeira exigência que precisa permanecer é a de que o educando precisa ser visto como ser humano que é inserido num convívio de humanos.
De nossa parte dizemos que aí se encontra a mística do educador, ou seja, ir muito além da sua função de estar a serviço da educação e SER um serviço em vista da formação integral do ser humano indo além e quebrando os paradigmas que envolvem o seu mundo.
No contexto da educação transformada em quase mercadoria os paradoxos que a circundam transformam o educador em mercador de um produto que é ao mesmo tempo um direito dos consumidores em potencial. Ultrapassar esta barreira e trabalhar a cada dia para realizar o sonho da noite de formatura, que não se realizará em um dia nem tão pouco num momento mágico. A mística do educador consiste em ir preparando sujeitos que serão muito mais do que “caixas de ferramentas” plenamente cheias e prontas para o uso num determinado momento de sua existência, mas que vão se construindo cotidianamente.
Tendo presente esta concepção não basta ser esperto na sua área de conhecimento é preciso não ser ignorante no que se refere ao sentido da vida, isto implica aprimorar o conhecimento específico e o conhecimento do drama humano. É impossível separar a educação das expectativas e da orientação de vida. Dito isto é mais fácil compreender quando o autor fala em conhecer as trajetórias e os tempos dos educandos como uma condição para reconstruir as trajetórias profissionais dos mestres.
No processo de educação e no cotidiano das relações sociais nos deparamos com as imagens quebradas que tínhamos da infância. Esta etapa da vida que foi construída como símbolo de bondade quase angelical foi sendo substituída por imagens de decadência moral e neste universo o que se pode esperar como resposta dos seus mestres. Estamos experimentando tempos confusos para os mestres e para toda a tarefa da docência: quanto mais o educador conhecer o aluno mais se dará conta que está distante dele, posto que o último seja sempre uma caixinha de surpresas.
Uma das situações mais dúbias pelas quais passa o mundo da educação é o conceito de violência e o fenômeno que a ela dá origem. Para trabalhar esta realidade é preciso compreender antes as condições inumas em que vivem nossos educandos, sejam eles provenientes de qualquer uma das classes sociais. Certamente aquela condição é mais violenta que a própria violência por eles praticada. O educador é chamado a se defrontar com a trajetória dos educandos e por meio deste confronto descobrir sua imagem humana de educador.
As tensões provocadas nos diversos níveis de relacionamento exigem trazer para o centro das discussões os tempos humanos de educados e educadores. Em outras palavras trazer o SER de cada uma das partes envolvidas no processo. Como compreender a educação e a escola como um direito se os que dela se acercam não realizam com alegria. Aquilo que é um direito não pode ser transformado num criador de monstrinhos. As tensões merecem ser encaradas e resolvidas na medida em que a comunidade escolar passar a levar para a escola a sua fome de saber associada à fome de sentido para a vida.
O imaginário dos educandos precisa encontrar na escola uma resposta para suas mais profundas inquietações. A evasão, a desatenção, a não aprendizagem e até a violência podem ser sintomas que a educação não está alcançando o objetivo de ser o imaginário construído. Parece que aquilo que se ensina não é referência para a vida. A especificidade de ensinar consiste em facilitar que o outro aprenda e isto obviamente não se dá enquanto o educador for visto e tratado como aquele que sabe a serviço daquele que não sabe.
Um dos desafios para recuperar o sentido alegre do direito à educação será completar nas bases curriculares questões que ajudem a responder o sentido da vida. Um dos lugares, se é que se pode chamar assim, para se aprender é a vivência dos direitos e deveres. Na medida em que o educador tem claro sua função de formar pessoas mais facilmente ele se dará conta que seus discípulos são sujeitos que pensam, aprendem, fazem, concordam, discordam, etc. Sob esta ótica é pertinente ao educador desenvolver habilidades para escutar, ver, experimentar, criar sensibilidade para com toda a realidade dos destinatários da sua missão.
Não se pode prescindir da tarefa do educador que ele está a serviço do ser humano na sua totalidade e não apenas de uma das partes seja ela, corpo, mente ou espírito. Parece muito mais fácil ser professor especialista em conhecimento do que ser educador na totalidade da existência dos seus discípulos. Ler a tarefa do educador com outros olhares implica trazer para os currículos os grandes questionamentos humanos, os quais muitas vezes estão olvidados.
As imagens quebradas das crianças angelicais precisam ser lidas à luz da espiritualidade, isto é da mística que constrói o ser por inteiro. Muitas vezes o educador tem dificuldades para imaginar questões relevantes do existir humano uma vez que foi formado para ser docente de conteúdos sendo insensível às grandes interrogações que lhes são apresentadas por seus alunos. Facilmente o educador é levado a concluir que aquilo que não se enquadra no currículo não é conhecimento. Esta concepção urge ser quebrada para recuperar a visão da figura humana na sua inteireza.
Mais do que em outros tempos a sociedade manifesta uma aguçada preocupação com conduta e neste sentido facilitar a realização de um comportamento adequado é tarefa que exige empenho público, pessoal e particular. A superação da mentalidade fragmentada do ser humano é um imperativo para recuperar o terreno perdido com a crescente quebra de imagens. Naturalmente, alguém precisa ser responsabilizado por esta parte da educação sob pena de ser uma tarefa de todos e não ser atribuição de ninguém.
O universo das imagens quebradas apresenta uma vulnerabilidade na arte de aprender e ensinar e esta realidade exige um melhor acompanhamento nos percursos de sua formação. A formação humana e integral costuma ser menos familiar do que os conhecimentos e, por isso mesmo, acaba sendo tratada com pouco ou nenhum profissionalismo. Na arte de educar se faz necessário compreender que muitos dos destinatários da educação tem um única escolha: Ficar vivos! Daí que aproximar-se dos educandos diante das suas escolhas exige da docência novas crenças, novos saberes, novas capacidades profissionais. Exige mística. Ele precisa ser um mistagogo do saber.
As escolhas a que nossas crianças e adolescentes são forçados a fazer condicionará o papel dos educadores nos seus tortuosos processo de formação e no exercício da sua liberdade. O mundo da pós modernidade que quebrou as imagens, antes angelicais, das nossas crianças faz também que elas sejam forçadas a fazer escolhas antes reservadas à sociedade adulta e aí se encontra o desafio para o educador reaprender o seu ofício ou diria a arte de educar à qual exige uma paciente espera.
Não tem mais lugar no campo da educação e de toda a realidade humana a ideia da predestinação divina, o desafio consiste em dar novas respostas para novas imagens, ou seja, ser educadores novos diante de novos alunos. Para dar conta das novas situações de trabalho os docentes são chamados a elaborar novas estratégias de estudo e de planejamento, estratégias coletivas de reorganização curricular. O principal produto da inovação escolar serão as mudanças que se fizer acontecer nos próprios docentes. Prática e teoria docente estão cada vez mais interligadas, isto significa dizer mistagogia.
Uma das coisas que exige ser respondida é a questão do tempo, este separa o profissional docente do educador. A resistência em questionar a ordem temporal do processo educativo (idade cronológica, idade escolar, relação idade série – idade ciclo, etc.) implica em reinventar outra ordem e isto exige uma nova mística para o tempo e para a educação como um todo. Do modo como estão pensados os espaços e os tempos a escola ainda mira a formação de profissionais, conteudistas, e faz perecer o tempo para o ser humano. Será imprescindível readequar as trajetórias temporais e as trajetórias humanas.
Há que superar a visão dualista do processo educacional uma vez que os tempos e lugares aos quais convencionamos como restritos para a educação se encontram distintos e com diferentes missões. Neste modelo a escola ensina enquanto cabe às famílias, à sociedade, às igrejas educar. Essa dicotomia há que ser superada é necessário recuperar a formação do ser humano na sua total complexidade. Daí que a visão do educador precisa ir muito além do frágil conceito de docência neutra, sua imagem não pode ser separada da sua imagem de docente humano. Docência e formação são duas faces da mesma moeda.
O Ser humano vive no tempo, mas não em função do tempo. Com este conceito fica mais fácil compreender que é preciso pensar antes nos tempos humanos do que nos tempos para os humanos. Mais do que vivenciar as estruturas e sistemas é necessário ter em mente os sujeitos. Esta afirmação está implícita nas palavras do autor quando escreve: “Por vezes, nossos alunos, passam anos assistindo aulas onde se explica tudo, menos suas vidas. Porque a escola e seus professores que sabem tanto sobre tantas matérias pouco sabem e explicam sobre a infância, a adolescência, a juventude, suas trajetórias, impasses, medos, questionamentos, culturas, valores?" (Arroyo, 2009, p.305).
Nossa sociedade ocidental é cristã, não será, pois interessante que nossos educadores sejam vistos como espelho também sob o ponto de vista da mística de Jesus de Nazaré? Diante dos contrastantes dados em relação aos tempos e idades das crianças, cada vez mais se pede uma mística do educador para trabalhar com a dignidade e garanti-la aos educandos. Parece se constituir um dever saber mais sobre eles num envolvimento com a vida toda e com toda a sua existência. Educadores, mais do que todos, precisam ter a noção do ser humano inteiro em todos os seus tempos. A incapacidade para perceber isso se torna um bloqueio para o saber e aí se realiza a especificidade da arte de ensinar a qual consiste em facilitar para que o outro aprenda, se o destinatário não aprendeu, naturalmente não houve ensino.
Desenvolver uma mística do educador significa reinventar convívios mais humanos e menos solitários. Implica planejar com profissionalismo práticas estratégias que deem conta desta diversidade de contextos de aprendizagem, de socialização e de trajetórias humanas. Tratar de questões ligadas a retenção/reprovação é antes uma questão de dignidades que o educador precisa trabalhar em si mesmo e no sistema. Aprovar ou reprovar é um tumor escondido por décadas no sistema educacional esta situação merece ser tratada como uma questão ética, humana e social.
Facilitar o aprendizado da criança de acordo com o seu tempo é uma tarefa do educador. Todavia quando o destinatário não aprende é tarefa deste último compreendê-lo na totalidade da sua existência humana. Esta atitude exige do educador mais do que conhecimento e competência técnica, exige espiritualidade. Nos últimos 20 anos a sociedade brasileira cresceu muito nos conceitos de participação e democracia também na comunidade escolar. É urgente evoluir para uma nova compreensão do ser humano nesta estrutura. Esta evolução exige uma resposta mística. Avançamos politicamente, mas estamos presos à lógica humana conservadora.
Dentre os desafios da educação, um deles é tratar do tempo do educador na totalidade do seu ser. O tempo é muito mais do que condições favoráveis para exercer seu ofício ou condições técnicas e pedagógicas. Nas disputas por direitos e deveres os profissionais da educação são tratados como sujeitos cindidos. Será impossível olhar para as trajetórias e tempos dos educados sem olhar para as histórias e tempos de seus mestres.
As imagens quebradas das nossas crianças em nada se diferenciam das imagens quebradas dos seus educadores ambas precisam ser revistas sob a ótica da espiritualidade e da mistagogia na formação do docente.

REFERÊNCIA

ARROYO, Miguel G. Imagens quebradas, trajetórias e tempos de alunos e mestres, Petrópolis, Vozes, 5ª. Edição, 2009.

6 comentários:

  1. As práticas educacionais precisam acompanhar as transformações socio-culturais. Não dá para aplicar os mesmos métodos, os mesmos principios de tempos atrás na escola de hoje. São outros tempos, os educandos se expressam, mostram seus desejos, querem ser enxergados.Não são apenas " sacos vazios" para serem cheios de conhecimento.

    Fernanda, Pedagoga.

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  2. manda o Miguel Arroyo ler foucault, e depois vir falar de educação...

    Elias A.

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  3. Muito interessante a síntese e a reeleitura deste livro.
    Apreeciei muito o que li e agradeço a oportunidade.

    Paula, Pedagoga.

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  4. QUE PENA VER OS EDUCADORES PRESOS AO MIGUEL ARROYO, POIS É ULTRAPASSADO E FORA DO CONTEXTO BRASILEIRO.
    QUE FORA COMPARAR OS EDUCADORES DO SEC XXI COM O MESTRE DOS MESTRES JC.
    EDUARDO CIAN

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  5. Infelizmente a grande maioria dos Professores, por que não dizer Escolas, Colégios, Cursos, Universidades, resistem a idéia de que também são educadores e formadores de Seres Humanos, na essência verdadeira do significado do que é SER HUMANO de verdade!! No entanto, é muito mais cômodo, em nossa zona de conforto, transferir integralmente aos responsáveis, familiares, essa responsabilidade.

    Durante o tempo que os alunos permanecem nas escolas e colégios, os componentes dessas instituições, independente de suas funções, devem ser referências para os mesmos!!!!

    E assim..... as fábricas de monstrinhos vão crescendo. Não importa se o modelo não é esse. Faça a sua parte, que com certeza será recompensado!!!

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  6. Eu até entendo o ponto de vista das pessoas porque não conhecem o que está por trás da educação e criticam sempre os professores sem perceber que por traz desse profissional tem um sistema que o oprime, que não permite que seja diferente. E outra, o aluno não temmais deveres, tem somente direitos. E os professores? Onde estão seus direitos?

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