terça-feira, 25 de agosto de 2026

HOMILIA PARA O DIA 30 DE AGOSTO DE 2026 - 22º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A

 

SEGUIR JESUS NO CAMINHO DA CRUZ E DA VIDA

 

 

A Palavra de Deus deste domingo nos mostra que seguir o Senhor nem sempre é fácil. Jeremias sentiu-se conquistado por Deus e colocou toda a sua vida a serviço da sua Palavra. Por isso, enfrentou incompreensão, sofrimento e perseguição. Mesmo desejando desistir, a Palavra ardia dentro dele como fogo e ele não conseguiu silenciá-la. Também nós, quando vivemos com fidelidade o Evangelho, podemos encontrar dificuldades; mas Deus nos sustenta e nos dá força para continuar.

São Paulo convida-nos a oferecer a Deus toda a nossa existência como “sacrifício vivo, santo e agradável”. O verdadeiro culto não se limita à celebração, mas continua na vida diária: na família, no trabalho, na comunidade e no compromisso com os pobres e sofredores. Por isso, não devemos conformar-nos com a lógica deste mundo, marcada pelo egoísmo, pela injustiça e pela indiferença, mas renovar o nosso modo de pensar e viver segundo a vontade de Deus.

No Evangelho, Pedro não compreende que Jesus deverá passar pelo sofrimento, pela morte e pela ressurreição. Ele esperava um Messias poderoso e vitorioso, mas Jesus revela que o caminho de Deus passa pelo amor que se entrega. Por isso, diz aos discípulos: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”. A cruz não significa procurar o sofrimento, mas permanecer no amor quando amar custa, servir quando seria mais fácil pensar apenas em si e defender a verdade mesmo diante das dificuldades.

Peçamos, portanto, a graça de não viver apenas para o sucesso e o reconhecimento. Que saibamos oferecer a Deus a nossa vida concreta, com os seus trabalhos, lutas e responsabilidades. Nesta semana, procuremos realizar um gesto de serviço, perdão ou solidariedade. Quem perde a vida por amor a Cristo encontra a verdadeira vida, pois Jesus ressuscitado caminha conosco e transforma a nossa entrega em esperança.

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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

HOMILIA PARA O DIA 23 DE AGOSTO DE 2026 - 21º DOMINGO DO TEMPO COMUM.

 

QUEM VOCÊS DIZEM QUE É JESUS?

Neste 21º Domingo do Tempo Comum, a Palavra de Deus nos convida a renovar nossa adesão a Jesus. Em meio às muitas vozes do nosso tempo, o Senhor pergunta também a nós: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Não basta conhecer opiniões sobre Jesus; é necessário reconhecê-lo como o Messias, o Filho do Deus vivo, e deixar que essa fé ilumine nossas escolhas, nossas relações e a caminhada de nossas pequenas comunidades. A resposta de Pedro torna-se a resposta da Igreja e de cada discípulo: pertencemos a Cristo e queremos segui-lo com fidelidade.

A fé, porém, não é uma palavra guardada no passado. A Palavra de Deus se atualiza quando é acolhida no contexto concreto em que vivemos: nas dificuldades da família, nas mudanças da sociedade, na solidão dos idosos, nas preocupações dos jovens, na pobreza e nas esperanças de nosso povo. Escutar Jesus é perguntar, com humildade e coragem, o que o Evangelho pede hoje de nós. Como o salmista, damos graças porque o Senhor permanece fiel e sustenta sua obra; sua Palavra continua viva, capaz de orientar a comunidade em cada tempo.

As leituras também nos recordam que toda autoridade vem de Deus e deve ser exercida como serviço. A chave entregue a Eliacim não é símbolo de privilégio pessoal, mas de responsabilidade diante do povo: ele deve ser “um pai para os habitantes” de Jerusalém. Do mesmo modo, na Igreja, nas famílias e na sociedade, toda função de liderança deve abrir portas, proteger os mais frágeis, promover a dignidade das pessoas e construir a comunhão, nunca alimentar vaidade, domínio ou exclusão. A autoridade cristã somente glorifica a Deus quando se coloca a serviço da vida e do bem comum.

Diante do mistério da sabedoria divina, reconheçamos que tudo vem de Deus, existe por sua graça e para sua glória. Renovemos, portanto, nossa profissão de fé em Jesus e assumamos, em nossa comunidade, o compromisso de traduzir essa fé em serviço concreto, escuta fraterna e cuidado com cada pessoa. Que o Senhor nos conceda a graça de permanecer firmes sobre a rocha que é Cristo e de usar toda responsabilidade recebida para promover a vida, a justiça e a esperança. A ele seja a glória para sempre. Amém.

 

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

HOMILIA PARA O DIA 09 DE AGOSTO DE 2026 - 19º DOMINGO DO TEMPO COMUM

 

NÃO TENHAM MEDO, SOU EU, DIZ JESUS AINDA HOJE!

A Palavra de Deus que ouvimos nesse domingo nos coloca diante da mais genuína necessidade humana: reconhecer Deus e sua presença em nossas adversidades. Na primeira leitura o profeta Elias foge da perseguição no Reino do Norte e vai se refugiar no monte Horeb, o mesmo lugar onde Deus se revelou de forma extraordinária a Moisés durante a escravidão do povo no Egito. Diferente da revelação feita a Moisés agora Deus se apresenta na brisa serena, longe do barulho e dos sinais extraordinários.

A mesma cena se repete na travessia do mar que está sendo realizada pelos discípulos. Jesus os tinha enviado com uma tarefa bem específica: garantir que as pessoas que tinham participado da multiplicação dos pães continuassem a ser saciados com a palavra e o testemunho dos apóstolos.

Ao longo da travessia os discípulos experimentam todas as dificuldades que qualquer tarefa ou compromisso acarretam. Simbolizado no mar revolto a comunidade dos discípulos se assemelha em tudo às nossas comunidades e ao nosso cotidiano de trabalho e relações familiares e sociais. Eles se ressentiam da ausência de Jesus e não sabiam como agir diante das provações que estavam enfrentando. Nem mesmo quando Jesus se aproximou eles o reconheceram, antes ficaram com medo. Mas a Palavra de Jesus traz de volta a calmaria e a paz. Tal como aconteceu com Elias na primeira leitura se repete agora na travessia do mar. Os discípulos se prostram e declaram “verdadeiramente Você é o Filho de Deus”.

Não ter medo de enfrentar as provações cotidianas é o que nos ensina o diálogo de Pedro com Jesus: “Se é Você manda que eu vá ao seu encontro caminhando sobre as águas” e Jesus ordenou que viesse, enquanto Pedro acredita o mar não é uma ameaça, mas quando perde a confiança começa a afundar.  

A lição de Pedro serve para o nosso cotidiano. Quando a vida nos dá uma rasteira é a oportunidade para colocar nossa vida na mão de Deus e assim caminhar com segurança.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

HOMILIA PARA O DIA 02 DE AGOSTO DE 2026 - DÉCIMO OITAVO DO TEMPO COMUM

VENHAM TODOS ÀS ÁGUAS RESTAURADORAS

 

A Palavra de Deus neste domingo nos coloca diante de um convite que desnuda a esperança cristã: “Vinde, vós que tendes sede, vinde às águas… vinde, comprai e comei… sem dinheiro e sem preço… Ouvi-me com atenção, e comei o que é bom (Is 55,1-2). Essa gratuidade ilumina também o mês vocacional e o dia da vocação ao sacerdócio: Deus não “vende” o seu chamado, nem o mede por mérito humano, mas o oferece como graça que chama, nutre e faz viver. Por isso, a Igreja insiste que a promoção das vocações nasce sobretudo da oração ao “Senhor da messe” (cf. Mt 9,38; Lc 10,2) e que este tempo do ano litúrgico favorece um “clima espiritual” que disponha ao discernimento e ao acolhimento do dom. 

No Evangelho, Jesus mostra como a misericórdia de Deus se torna pão no tempo: ao ver a multidão, “teve compaixão… e curou os doentes” (Mt 14,14).  A noite chega, e os discípulos sugerem uma solução curta: “despede a multidão” para que cada um compre o que comer (Mt 14,15).  Mas Jesus, com autoridade e ternura, inverte a lógica: “Não precisam ir embora; dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16).  Diante do “pouco” — cinco pães e dois peixes” (Mt 14,17) — Ele manda trazer, sentar a multidão e, olhando para o céu, abençoa, parte e dá (Mt 14,18-19).  Para uma homilia neste contexto vocacional, é impossível não perceber: o sacerdote, quando é chamado e formado, é colocado justamente para distribuir o que Cristo oferece — a Palavra que alimenta, os Sacramentos que sustentam e a caridade que cura — fazendo da compaixão de Deus algo concreto na vida do povo. 

Esse milagre ensina um caminho espiritual para quem discerne e para quem ajuda a discernir: o “recurso” inicial parece insuficiente, mas a graça de Deus faz frutificar o que é pequeno.  Assim acontece no nascimento de uma vocação: ela começa num diálogo de amor, nasce no terreno da liberdade e amadurece num itinerário de formação que transforma a vida até que o chamado se torne dom.  Por isso, durante o mês vocacional, não basta “desejar” vocações: é preciso apoiar iniciativas que cultivem a abertura do coração, e isso inclui a colaboração orgânica entre bispos, sacerdotes, religiosos e leigos, com destaque para pais e professores, pois Deus costuma semear vocações nas mediações humanas do dia a dia.  Quando a comunidade reza, conversa com verdade, oferece exemplos e sustenta com generosidade, a “pobreza” do pão inicial encontra o céu aberto da bênção divina.  E agora desça ao chão, ao cotidiano, onde a fé é provada: a Escritura manda “ouvir” para “viver” e faz do Reino uma mesa oferecida. Concretamente, cada família pode praticar a misericórdia em pequenos gestos que também alimentam vocações: dar tempo para visitar alguém em necessidade, repartir o que sobra, educar para a verdade e para o amor, falar com respeito sobre o sacerdócio e convidar os jovens a não terem medo de responder ao chamado. Neste dia, a Igreja também pede que a pregação — hoje e sempre — seja proclamada de modo que a Palavra, no contexto da liturgia, converta a vida: “o sermão… deve tirar o conteúdo principalmente de fontes bíblicas e litúrgicas” e apresentar “o mistério de Cristo… presente e atuante” na celebração. Que a Eucaristia, mesa do Senhor, nos ensine a buscar “águas sem preço”, a sentar-nos confiantes, a levar a Jesus o pouco que temos e, com alegria e gratidão, pedir ao Pai que envie operários para a sua messe. 

 

sexta-feira, 19 de junho de 2026

HOMILIA PARA O DIA 26 DE JULHO DE 2026 - DÉCIMO SÉTIMO DOMINGO DO TEMPO COMUM

VIVER COMO GENTE NA COLHEITA 


Neste XVII Domingo do Tempo Comum a Liturgia faz a Palavra tomar forma de anúncio: Deus conduz a história para o bem daqueles que O amam, e o seu Reino se revela como tesouro, como pérola, como rede lançada ao mundo; por isso, a homilia deve ser proclamada a partir das Escrituras, para que o mistério de Cristo seja luz viva na celebração. 

A Carta aos Romanos sustenta a esperança cristã com uma certeza que ordena o coração: “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam Deus e que são chamados segundo o seu desígnio; e esse caminho tem etapas reais — chamado, justificação e glorificação — como se Deus já começasse, agora, a revelar o seu plano no tempo. Assim, quando a vida parece interrompida por um imprevisto (um diagnóstico inesperado, o fechamento de um trabalho, uma ruptura familiar, a demora de uma reconciliação), o cristão não nega a dor; mas aprende a dizer: “não é o acaso que governa”, e sim a Providência que pode fazer até o que dói servir ao bem maior de Deus. 

No Evangelho, Jesus compara o Reino a um tesouro escondido e a uma pérola de grande valor: a pessoa encontra, esconde de novo com prudência e, em sua alegria”, vende tudo para comprar o campo; o comerciante, ao achar a pérola, também entrega o que tem. Algumas decisões parecem “perder” algo — oferecer tempo para rezar e amar, dizer a verdade com caridade, perdoar uma ofensa, sustentar um compromisso apesar do custo —, e é exatamente aí que se reconhece o valor do Reino. Porque quem viu a pérola não consegue mais reduzir Deus a “mais uma coisa”; passa a reorganizar prioridades com coragem. 

Por fim, Jesus fala da rede que apanha peixes de toda espécie e só na colheita” há separação entre o bem e o mal; e completa: o discípulo instruído no Reino é como o “mestre da casa” que tira do tesouro “o que é novo e o que é velho”. Isso é pastoralmente exigente: não basta receber a Palavra com entusiasmo; é preciso deixá-la formar o juízo e a prática, aprendendo a fidelidade ao Evangelho “antigo” e a novidade do amor que Deus vai escrevendo no coração “hoje”. Ao aproximar-se da mesa eucarística, peçamos a graça para amar o Reino acima de tudo, confiar que Deus faz cooperar o que é contraditório e viver como gente de colheita: escolhendo o bem agora e trazendo ao Senhor um coração verdadeiramente convertido. 

HOMILIA PARA O DIA 19 DE JULHO DE 2026 - DÉCIMO SEXTO DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A

 

DEIXAR CRESCER A MISERICÓRDIA

 

Neste XVI Domingo do Tempo Comum a liturgia nos faz contemplar a misericórdia de Deus na maneira como Ele governa o tempo: paciente, sem pressa de destruir, mas também justa, sem permitir que o mal tenha a última palavra. A Sabedoria recorda que Deus cuida de todos, e que o coração humano não pode enganar-se com aparências: há quem “fale com doçura”, mas planeje o mal por dentro.  No Evangelho, Jesus apresenta o Reino como uma obra do semeador: “o homem semeou boa semente”; porém, “enquanto todos dormiam, veio o inimigo e semeou ervas daninhas no meio do trigo”. Os servos, vendo o escândalo já nascendo, querem arrancar as ervas; mas o Senhor responde: “Não porque, ao arrancar as ervas, não arrancaríeis junto com elas o trigo”. E conclui: “deixai crescer ambos até a colheita”. Assim, o tempo da mistura é também o tempo da misericórdia: Deus não se deixa vencer pelo impulso de eliminar; Ele espera até o desfecho, quando a colheita revelar a verdade. 

A Sabedoria ilumina essa pedagogia divina ao mostrar que o mal, quando se apresenta “com lábios doces”, não muda seu desígnio. O inimigo age como quem promete proteção, mas a ruína chega; e, então, “se agitará” e mostrará o que era. É como no cotidiano: pense numa horta em que, pouco depois da semeadura, aparecem plantas daninhas. Se alguém tentar arrancá-las de imediato, pode destruir também o que foi plantado com esforço. Um agricultor prudente espera o crescimento para que o fruto fique reconhecível; do mesmo modo, Deus permite que a história avance, porque sua misericórdia não é ingenuidade: é espera com sabedoria até que a colheita se torne clara.

Diante disso, a Igreja nos convida a viver a paciência sem transformar a misericórdia em tolerância do mal: não é o nosso papel arrancar cedo demais, movidos por raiva, fofoca ou “lógica de servos”. É, antes, acolher a misericórdia de Deus como critério para o próprio coração: quando houver ervas ao redor — diferenças, fraquezas, erros de outros, confusões na comunidade — praticar o bem, corrigir com caridade, rezar sem desistir e confiar a separação final ao Senhor. Pois a misericórdia divina é paciente “até a colheita”, e sua justiça, no fim, não abandona o trigo. 

 

HOMILIA PARA O DIA 12 DE JULHO DE 2026 - DÉCIMO QUINTO DOMINGO COMUM - ANO A

 NO CAMINHO DO REINO,

CONSTÂNCIA E PROFUNDIDADE

 

Neste XV Domingo do Tempo Comum – a Igreja nos faz entrar na escola da esperança: uma esperança que não nega a dor, mas a atravessa; uma esperança que não se reduz a “desejos”, mas se transforma em acolhimento da Palavra. É como quem já conhece o Reino, ainda que o não veja plenamente, e por isso aprende a esperar com o coração vigilante. 

A Epístola aos Romanos coloca diante de nós um contraste que cura a ansiedade: “os sofrimentos do tempo presente não se comparam com a glória” que Deus há de revelar. Aí não se trata de resignação muda, mas de espera em esperança: a criação “aguarda com ânsia” a revelação dos filhos de Deus, e nós também “gememos por dentro, enquanto esperamos a adoção”. Assim, nossa expectativa — quando é fé — ganha um sentido pascal: o gemido não é derrota, é trabalho interior orientado para a redenção. 

No Evangelho, Jesus descreve o Reino como semente lançada na terra: a Palavra é acolhida de modos diferentes. Há quem receba, mas “no caminho” a palavra é rapidamente arrancada; há quem receba com entusiasmo e, ao primeiro calor das provações, desapareça por falta de profundidade; há quem permita que “as preocupações do mundo” (os espinhos) a sufoquem. E, então, Jesus encerra com um convite que é oração e compromisso: “Quem tem ouvidos, ouça”. O Reino não é apenas esperado; ele é “recebido” — e isso depende do solo do coração

Eis a comparação com o cotidiano: quando alguém espera algo bom (uma resposta médica, uma reconciliação, uma porta que tarda), a ansiedade costuma apertar o pensamento e roubar a paz; mas a Palavra deste domingo ensina outra atitude, porque a espera cristã não é passiva nem apenas tensa — é fecunda. Que esta semana o seu “aguardar” passe de pânico para esperança: escute a Palavra com constância, peça profundidade para não desanimar nas provações e escolha libertar o coração dos espinhos que sufocam o crescimento. “Quem tem ouvidos, ouça

 

quarta-feira, 20 de maio de 2026

HOMILIA PARA O DIA 05 DE JULHO - DÉCIMO QUARTO DOMINGO DO TEMPO COMUM

 

EIS QUE VEM O TEU REI!

 

Caríssimos, a Palavra de Deus hoje nos conduz ao encontro de um Rei que vem humilde e, por isso mesmo, restaura a verdadeira paz. Por meio do profeta, o Senhor promete: “Eis que o teu rei vem a ti… humilde e montado num jumento” e sua missão culmina em paz: “Ele exterminará o carro de guerra… e ordenará a paz às nações” (Zc 9,9-10). No Evangelho, Jesus ecoa essa misericórdia real e faz a todos um convite que não humilha, mas alivia: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos… e eu vos darei descanso” (Mt 11,28).  Ao falar assim, Jesus agradece ao Pai porque os seus caminhos não se revelam à soberba, mas à simplicidade. Ele diz: “Eu te louvo, Pai… porque ocultaste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25). Essa pedagogia divina não despreza a inteligência, mas purifica o coração: a sabedoria que fecha o homem em si não acolhe a graça; já o coração humilde, como pequenino, aprende a confiar. Por isso, quando se anuncia o Rei que entra “montado no jumento”, ressalta-se a misericórdia: não vem para oprimir, mas para libertar, afastando o medo servil que prende a alma (cf. Zc 9,9; Mt 11,25). 

Quantas vezes, na vida cotidiana, carregamos pesos que não escolhemos: a preocupação com o sustento, a tensão familiar, o cansaço acumulado pelo trabalho, a ansiedade que nos impede de rezar com calma. Às vezes, até as nossas boas intenções viram uma espécie de carga interior: queremos fazer tudo, controlar tudo, resolver tudo, mas por dentro vamos ficando exaustos. É exatamente a esses que Cristo se volta: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim… pois sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29). Na catequese do Papa Francisco, essa mansidão aparece como presença de Deus que dá alívio: Jesus não impõe um fardo que Ele não carrega; antes, Ele oferece o seu caminho e, n’Ele, o peso transforma-se em descanso (cf. Mt 11,28-30).  Por isso, a nossa resposta hoje é concreta: não fugir do cansaço, mas levá-lo a Cristo; não endurecer o coração, mas aprender o estilo do Mestre. Jesus afirma: “o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11,30). O profeta já anunciava que, quando o Rei chega, a lógica da guerra é derrotada: “Ele… exterminará o carro de guerra… e… ordenará a paz” (Zc 9,10). Assim, onde a nossa casa ou o nosso dia só conhece discussões, críticas e reatividade, a fé cristã começa a instaurar paz pelo caminho da humildade e da mansidão: falar com verdade sem esmagar, corrigir sem humilhar, obedecer sem ressentimento, perdoar sem adiar indefinidamente. Senhor Jesus, dá-nos um coração manso e humilde; faze-nos aprender de Ti, para que, carregando o teu jugo, encontremos descanso e semeemos paz. 

 

terça-feira, 19 de maio de 2026

HOMILIA PARA O DIA 28 DE JUNHO - SOLENIDADE DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO

 

PEDRO E PAULO, PERSEVERANÇA E FIDELIDADE

 

Na festa dos santos apóstolos Pedro e Paulo, a Igreja nos mostra dois caminhos para continuar de pé quando tudo parece apertar: oração perseverante e fidelidade ao Evangelho. Em Jerusalém, Herodes lançou violência contra os membros da Igreja e mandou prender Pedro; a comunidade, porém, rezava sem cessar por ele. A unidade não foi mantida por manobras políticas, mas por um povo que ficou junto diante de Deus. 

Pedro está preso, acorrentado, vigiado — e ainda assim acontece o inesperado: naquela noite, uma luz envolve a cela, um anjo toca Pedro, as correntes caem e ele recebe instruções simples e decisivas: Levanta-te depressa. Paulo, anos depois, vai traduzir essa mesma coragem em linguagem de luta: combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. Não se trata de romantizar o sofrimento, mas de reconhecer que a fé não é passiva: ela sustenta a pessoa até o fim, mesmo quando parece não haver saída. 

No Evangelho, Jesus toca no coração da missão: E vós, quem dizeis que eu sou? Pedro responde com uma confissão que revela quem sustenta a Igreja: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. E então Jesus lhe entrega uma tarefa concreta: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; dá as chaves do Reino e promete que as portas do inferno não prevalecerão. Isso explica, de modo muito cotidiano, por que a Igreja é una: não porque todos pensamos igual por conta própria, mas porque há um fundamento visível, que lembra que Cristo continua a conduzir o seu povo. Quando, por exemplo, acompanhamos pela rádio ou pela TV a mensagem do Papa — o sucessor de Pedro — sentimos que não estamos espalhados ao acaso: pertencemos a um mesmo Corpo, com uma mesma fé e uma mesma esperança. 

Para viver esse dia, a pergunta prática é: o que fazemos com as correntes que prendem a nossa vida? Há correntes que são medo, indiferença, divisão na família, discussões na comunidade, cansaço. A primeira atitude de Pedro foi obedecer à voz que manda levantar; a de Paulo foi manter a fé até o fim, sabendo que o Senhor estava com ele para que a mensagem fosse proclamada e que Ele o libertaria. Então, nesta semana, proponha um gesto simples e real: reserve alguns minutos por dia para rezar pela unidade da Igreja e pelos que sofrem por causa da fé, e, quando vier a tentação de desistir ou de endurecer o coração, repita interiormente: Levanta-te depressa — e dê um passo concreto de reconciliação e anúncio. 

 

HOMILIA PARA O DIA 21 DE JUNHO DE 2026 - DÉCIMO SEGUNDO DOMINGO DO TEMPO COMUM

 

A VERDADE SEMPRE TEM PESO

 

No dia a dia, muita gente vive um medo de falar: no trabalho, alguém pensa duas vezes antes de denunciar uma injustiça, porque podem descobrir quem falou; em casa, a verdade que precisa ser dita costuma ficar engavetada para evitar conflito. Jesus, porém, desmonta essa lógica: “nada está oculto que não venha a ser revelado” e “o que foi ouvido no sussurro, seja proclamado”. Ou seja: a verdade não é um truque; a verdade tem peso e chega à luz. 

É dentro dessa claridade que São Paulo coloca o grande pano de fundo: o mundo entrou em crise por causa do pecado, e a morte se espalhou. Mas o cristianismo não termina aí; Paulo contrapõe a ruína com a iniciativa de Deus: o pecado de um só trouxe prejuízo, porém o dom gratuito de Deus — na graça de Jesus Cristo — abundou para muitos. Em linguagem simples: a história não é apenas queda; é também superabundância de misericórdia

Por isso, o salmo nos ajuda a entender algo que a comunidade conhece: quando alguém leva a fé a sério, pode sofrer incompreensão, críticas e até perseguição. O salmista não romantiza a dor; ele se identifica com o zelo que arde e com o sofrimento por amor ao Senhor. Há um tipo de fidelidade que custa — mas não é inútil, porque Deus não abandona quem se mantém firme. (É como um fogo que incomoda quem prefere as coisas apagadas.)

E então Jesus conclui com um motivo que tira a ansiedade do centro: Ele diz que não devemos temer os que só conseguem atingir o corpo, mas temer Aquele que tem poder sobre alma e corpo. Em seguida, Jesus dá um exemplo simples, quase cotidiano: dois passarinhos podem custar pouco, mas nenhum deles cai sem o Pai; e até os cabelos da cabeça estão contados. Logo, quem crê não é abandonado; é cuidado. “Todo aquele que me reconhecer diante dos homens, eu também o reconhecerei diante do meu Pai.” 

Por isso, neste domingo, a comunidade pode transformar o Evangelho em prática: faça uma escolha concreta de coragem—dizer a verdade com caridade, recusar fofoca e manipulação, pedir perdão onde a divisão começou, e apoiar quem foi injustiçado. A fé não é silêncio por medo; é testemunho sustentado pela certeza de que Deus vê, guarda e chama pelo nome quem permanece n’Ele. 

 

HOMILIA PARA O DIA 14 DE JUNHO DE 2026 - DÉCIMO PRIMEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM

 

POVO E PROPRIEDADE DE DEUS

 

Neste 11º domingo do Tempo Comum, a Palavra nos coloca diante de um mesmo chamado com duas faces: Deus forma um povo para ser propriedade sua e, ao mesmo tempo, Jesus envia pessoas para cuidar, curar e libertar. É como quando alguém descobre que tem uma missão maior do que imaginava: não é apenas “fazer religião”, é entrar no plano de Deus. E a pergunta que nasce no coração é direta: somos apenas ouvintes… ou nos tornamos mensageiros? 

Em Êxodo, Deus lembra ao povo que o resgatou com força e ternura: Ele “os levou” como quem sustenta alguém “sobre asas de águia, tirando-os da escravidão e levando-os para perto de si. Depois, vem a consequência: se o povo obedecer e guardar a aliança, será “propriedade” de Deus entre os povos, e terá uma identidade muito exigente — um “reino sacerdotal” e uma “nação santa. No Evangelho, Jesus olha para as multidões e se compadece, porque as pessoas estão como “ovelhas sem pastor”. E então Ele faz a passagem do sentimento para o envio: chama os discípulos, dá-lhes autoridade para agir em nome d’Ele e os manda com tarefas concretas: curar, expulsar espíritos impuros e anunciar.  Pensem numa cena cotidiana: quando alguém percebe que um vizinho caiu na rua e está precisando de ajuda, não basta dizer “coitado”; é necessário fazer alguma coisa. A compaixão que não vira gesto fica estagnada; vira apenas conversa. Jesus, ao contrário, tem “entranhas” de misericórdia, mas não se detém nisso: Ele transforma a dor do povo em caminho de serviço. E a missão dos discípulos tem um detalhe importante: não é pagamento, não é comércio — é dom. Quem recebe, dá; quem foi curado, cura; quem foi chamado, chama. 

Por isso, hoje, a comunidade dominical pode examinar a própria vida com duas perguntas bem práticas. Primeiro: que tipo de “rebanho” estou ajudando a cuidar — ou estou aumentando o cansaço de quem já está perdido? Segundo: minha fé fica em discurso ou vira misericórdia visível? Um “reino sacerdotal” não é status; é serviço. Uma “nação santa” não é estética; é fidelidade que se traduz em cuidado. Então, nesta semana, vamos escolher um gesto de envio: visitar alguém afastado, oferecer ajuda concreta a quem está enfermo, procurar reconciliar-se com quem virou distância, e acolher as pessoas sem tratá-las como problema. O Senhor não nos chamou para sermos espectadores; chamou para sermos instrumentos do seu amor. 

 

HOMILIA PARA O DIA 07 DE JUNHO DE 2026 - DÉCIMO DOMINGO DO TEMPO COMUM

 

DEUS É SEMPRE FIEL

 

Quantas vezes a vida diz “não vai dar”? Espera por um exame, por um emprego, por uma cura, por uma reconciliação… e o coração entra naquele modo de desânimo: “contra toda esperança…” É exatamente aí que São Paulo coloca Abraão: ele acreditou mesmo quando as condições pareciam fechar o horizonte. Ele não enfraqueceu na fé ao encarar a própria fragilidade e a esterilidade de Sara; ao contrário, ficou forte, dando glória a Deus, convencido de que Deus pode cumprir o que prometeu. Essa é a fé que não depende apenas do que é visível: ela se apoia no Deus que salva. 

E quando a fé vai ao fundo, ela encontra um motivo ainda maior do que “força de vontade”: a promessa de Deus tem poder de criar vida onde não há vida. Paulo descreve Deus como aquele que “dá vida aos mortos” e chama à existência o que não existe; por isso, a fé vai além do cálculo humano. E o centro dessa esperança é Jesus: Ele foi entregue por nossas transgressões e ressuscitado para a nossa justificação. Em outras palavras: não é só “um recomeço moral”; é uma esperança sustentada por uma vida que vem de Deus, capaz de transformar o que parecia sem saída. 

No Evangelho, Jesus faz algo que provoca: Ele vê Mateus, um cobrador de impostos, e simplesmente lhe diz: “Segue-me.” Mateus se levanta e segue. Depois, Ele vai à mesa com muitos cobradores e pecadores, e os fariseus ficam incomodados: “Por que ele come com essas pessoas?” A resposta de Jesus é direta, quase como uma frase que não deixa espaço para desculpas: “Os que têm necessidade de médico são os doentes.” E completa com um critério decisivo: “Eu desejo misericórdia, não sacrifício.” A missão de Jesus não é confirmar a pose de quem se julga perfeito; é chamar para perto os que reconhecem a própria fragilidade. 

Então, neste domingo, vale uma pergunta para a comunidade: a nossa fé nos torna mais misericordiosos ou mais “separados” dos que erram? Abraão nos ensina a não desistir da esperança; Jesus nos ensina a não desistir das pessoas. Fé sem misericórdia vira cobrança; esperança sem acolhimento vira discurso vazio. Concretamente, nesta semana, escolha um gesto: visitar quem anda afastado, conversar sem humilhar, perdoar antes que a distância vire hábito, e oferecer àquele que erra um lugar de volta. No fundo, Jesus quer que a nossa mesa e o nosso coração sejam “casa” — onde a misericórdia encontra gente real, e onde a esperança volta a nascer.