quarta-feira, 8 de abril de 2026

HOMILIA PARA O DIA 17 DE MAIO DE 2026 - ASCENÇÃO DO SENHOR - DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES

 

POR ENTRE ACLAMAÇÕES DEUS SE ELEVOU

 

Neste Domingo da Ascensão do Senhor, celebramos que Jesus foi elevado e ocultado aos olhos dos discípulos, enquanto a promessa do Pai os chama à espera e à fidelidade: “recebereis poder, quando o Espírito Santo descer sobre vós, e sereis minhas testemunhas” até “os confins da terra”. Na unidade da fé e da esperança, a Igreja é conduzida a compreender que o Crucificado não se ausenta: Ele é glorificado para que o Evangelho alcance todos os povos; e, entre a contemplação do Céu e o ardor da missão, permanece viva a certeza de que o Senhor voltará “do mesmo modo” que foi visto subir.

Ao contemplar o Cristo exaltado, a liturgia nos faz rezar com o Apóstolo: “conceda-vos o Pai… um espírito de sabedoria e de revelação”, para que os olhos do coração sejam iluminados e conheçamos “a esperança” e a “grandeza do seu poder” manifestado em Cristo Ressuscitado. Nele, o poder que vence a morte se torna sustento para a peregrinação do povo de Deus, pois Ele é “o cabeça” da Igreja, cuja plenitude é a sua presença que tudo preenche. Assim, a Ascensão não é distância, mas energia espiritual: é força para compreender, amar e testemunhar.

Por isso, do mesmo modo que os discípulos se aproximam do Senhor na montanha, nós também somos chamados a adorar e a entrar na missão que Ele confia: “foi-me dado todo o poder no céu e na terra”. A palavra do Ressuscitado ressoa como mandato e bênção: “Ide… e fazei discípulos de todas as nações”, batizando e ensinando a guardar tudo o que Ele ordenou. E a promessa permanece como bálsamo para a travessia: “estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo”.

Neste contexto, celebrando o Dia Mundial das Comunicações, recordamos que a missão apostólica hoje passa também pelos caminhos da informação e do discernimento. O Papa Leão XIV observa que, na “idade da comunicação”, é um paradoxo que a verdade seja confundida com o falso e o autêntico com o artificial, e por isso exorta a uma responsabilidade que forme consciências e fortaleça o pensamento crítico. Ele também afirma que a informação é um bem público a ser protegido, defendendo a colaboração entre cidadãos e jornalistas ao serviço da responsabilidade ética e cívica, bem como o acesso livre e verdadeiro à informação — sem que o trabalho de comunicar seja tratado como crime. Assim, como discípulos do Senhor que subiu aos céus, façamos das comunicações instrumentos de verdade, caridade e reconciliação, para que os povos reconheçam, nas palavras e nas imagens, o rosto de Cristo que envia e acompanha.

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HOMILIA PARA O DIA 10 DE MAIO DE 2026 - 6º DOMINGO DA PÁSCOA

 

ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓS

 

A Igreja celebra o tempo pascal com uma certeza que atravessa todas as épocas: Jesus está presente no meio de seu povo. Ele não se ausentou após a Ascensão; pelo contrário, “está vivo e ativo em sua Igreja”, e está na liturgia, essa presença se torna de modo especial “real” e eficaz: Cristo permanece “na Escritura”, “de modo único na Eucaristia”, “nos sacramentos”, “na Palavra” e até “quando a Igreja ora e canta”. Por isso, os cristãos de ontem e de hoje não se encontram com uma ideia religiosa, mas com uma presença viva: Cristo continua a ensinar, alimentar, curar, perdoar e renovar.

No Evangelho, Jesus revela o coração dessa presença. Ele liga o amor à obediência: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos”. E então dá uma promessa consoladora para as comunidades que sofrem: o Pai enviará “outro Advogado” — o Espírito Santo — para estar “convosco para sempre”. O texto é claro e comovente: o “Espírito da verdade” não é distante; o mundo não o conhece, mas vós o conheceis, porque “permanece convosco e estará em vós”. Assim, Jesus “não deixa órfãos” os seus; Ele vem, e a comunidade aprende a reconhecê-lo quando Ele revela que “Eu estou no meu Pai, e vós em mim, e eu em vós”. E esse anúncio não fica preso ao passado: o Espírito tem a missão de ensinar e fazer recordar o Evangelho, tornando-o vivo e operante no testemunho da Igreja.

A mesma ação divina aparece nos Atos dos Apóstolos, quando o anúncio chega a Samaria. Filipe proclama o Messias, e “as multidões, unânimes, escutavam com atenção”, vendo e ouvindo os sinais que confirmavam a pregação. Espíritos impuros se retiram, muitos doentes são curados, e “houve grande alegria naquela cidade”. Isso nos mostra como, ontem como hoje, a presença de Jesus não é silenciosa: ela irradia em sinais de libertação, cura e esperança que alcançam pessoas concretas. E é o Espírito Santo, que acompanha a Igreja em sua história, que ilumina e torna a verdade do Evangelho inteligível e testemunhável, com luz e força.

Por fim, a Carta de São Pedro ensina como uma comunidade “cheia de presença” vive na prática. No coração, Cristo deve ser santificado como Senhor, e cada cristão deve estar pronto para “dar razão da esperança” com mansidão e respeito, mantendo a consciência limpa mesmo quando há calúnias. Há também um caminho pascal exigente: às vezes é preciso sofrer por fazer o bem, como Cristo sofreu “uma vez por todas”, sendo morto na carne, mas tornado vivo no Espírito, para nos conduzir a Deus. Portanto, quando você enfrenta dificuldades, não é a sua força que deve aparecer em primeiro lugar; deve aparecer Cristo vivo em você pelo Espírito, que sustenta o testemunho e dá coragem para permanecer na verdade, na paz e na esperança — porque o Espírito da verdade continua presente e atuante no tempo da Igreja.

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HOMILIA PARA O DIA 03 DE MAIO DE 2025 - 5º DOMINGO DA PÁSCOA

  CREIAM EM DEUS E TAMBÉM NO FILHO DE DEUS

Queridos irmãos e irmãs, há momentos em que a vida parece “estourar” por dentro: dúvidas, cansaço, pequenos conflitos que viram grandes problemas. Foi assim, no coração dos discípulos, quando Jesus começou a falar como quem deixa um testamento. Eles estavam com ele, tinham ouvido, tinham visto… e, mesmo assim, sentiam medo do que viria depois. 

E nós também: reunidos para celebrar a memória de Cristo, sabemos o Evangelho—mas muitas vezes esbarramos nas mesmas dificuldades das primeiras comunidades: conhecer a doutrina não significa automaticamente viver a doutrina. Por isso, o Senhor não nos deixa apenas ideias; ele nos dá uma vida para ser vivida. 

No Evangelho (João 14,1-12), Jesus começa dizendo: “Não se perturbe o vosso coração… Crede em Deus, crede também em mim”. Ele não chama seus discípulos a uma coragem abstrata, mas a uma fé que reorganiza o interior—o coração. 

Depois, a pergunta de Tomé é muito humana: “Senhor, não sabemos para onde vais… como poderemos saber o caminho?”. E Jesus responde com uma frase que é ao mesmo tempo anúncio e direção: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vai ao Pai senão por mim.” 

Segundo São Tomás de Aquino, Jesus responde a uma questão completa: não basta saber “o trajeto”; é preciso conhecer também a meta—e a meta é o Pai. Por isso, Cristo é chamado não só caminho, mas também destino, porque ele mesmo conduz ao Pai.  Assim, quando Jesus diz “caminho”, ele não está oferecendo apenas um método; está oferecendo a sua pessoa que nos leva ao destino. 

Agora repare como essa fé se torna comunitária. Na Carta de Pedro, a identidade dos cristãos é descrita com imagens fortes: “vós sois… raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido”, para que anunciem as maravilhas daquele que os tirou das trevas e os chamou à sua luz. Ou seja: a fé não é só individual; ela cria um povo com uma missão.

E nos Atos dos Apóstolos, vemos a vida acontecendo: a comunidade cresce, mas surgem tensões reais—as viúvas “não recebiam o alimento na distribuição diária”. A doutrina não elimina o problema; ela prepara a comunidade para enfrentá-lo com justiça. Então os apóstolos dizem algo essencial: “não é justo que deixemos a palavra de Deus para servir às mesas”, e ao mesmo tempo reorganizam o serviço, escolhendo homens “cheios de fé e do Espírito” e dizendo que eles se dedicarão à oração e ao serviço da Palavra. Resultado: “A palavra de Deus crescia… e muitos sacerdotes aderiam à fé.” 

Portanto, o fio que une o Evangelho, Pedro e Atos é este: seguir Cristo é viver uma comunhão que sabe rezar e servir, sabe cuidar e anunciar, sabe corrigir prioridades e construir novas relações. E tudo isso acontece “a partir” do Ressuscitado—não apenas “apesar” das fragilidades. 

E a liturgia do tempo pascal nos ajuda a compreender que essa vida acontece na Igreja à medida que o Espírito atua preparando o cume da Páscoa: Pentecostes. O Evangelho deste domingo, destaca o caráter profundamente eucarístico e eclesial da caminhada da Igreja. 

Ora, comunidades humanas podem ser capazes de “funcionar”, mas apenas a união com Cristo sustenta o que é verdadeiramente cristão: a oração que não foge do serviço e o serviço que não abandona a Palavra. 

Um detalhe dos Atos é quase um retrato do nosso cotidiano: havia um problema concreto (distribuição diária), e a solução não foi negar o Evangelho, nem “inventar desculpas”. Foi reconhecer prioridades, escolher pessoas “cheias do Espírito e da sabedoria”, e dedicar-se ao que sustenta o povo por dentro: oração e Palavra. 

Talvez você reconheça suas próprias dificuldades nessa história.

·         Conhecemos o Evangelho, sim. Mas nem sempre conseguimos viver com paciência quando surgem incompreensões. 

·         Queremos ser fiéis, mas às vezes a comunidade se torna palco de ressentimentos e não casa de reconciliação. 

·         Dizemos “creio”, mas precisamos aprender, de novo e de verdade, o que Jesus quer quando diz: “Eu sou o caminho… e a vida.” 

Por isso, a pergunta do domingo não é só “o que eu sei?”, mas “como eu caminho?”. Se Cristo é caminho, então nossas decisões e nossas relações devem ser moldadas por Ele. Se Cristo é verdade, nossas palavras precisam tornar-se coerentes com o amor. Se Cristo é vida, nossas escolhas precisam gerar vida— vida de família, vida de vizinhança, vida de comunidade. 

E Pedro deixa claro que isso tem finalidade: anunciar. Mas anunciar não começa com frases decoradas; começa com um povo que vive como povo chamado “para proclamar as maravilhas”. 

Que caminho o Senhor nos pede, hoje?

1.     Voltar ao centro: no seu dia, antes de discutir, procure “crer”: confie que Jesus é o caminho e reorganize o coração. 

2.     Cuidar do concreto: quando houver tensão na comunidade, procure uma resposta que una oração e serviço da Palavra, como os apóstolos fizeram. 

3.     Viver identidade e missão: lembre-se de que você não está sozinho—é parte de um “povo adquirido” chamado à luz, para anunciar pelo modo de viver. 

Que esta celebração pascal nos encontre com humildade: as comunidades primitivas também conheciam as lições de Jesus e, ainda assim, enfrentavam dificuldades reais. A diferença é que elas deixavam Cristo moldar seus hábitos e prioridades. 

Neste 5º Domingo da Páscoa, Jesus não nos oferece um “mapa” distante; ele nos oferece o próprio caminho: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Por isso, o que recebemos nesta liturgia não pode ficar apenas no papel: precisa virar vida e missão.

quarta-feira, 25 de março de 2026

HOMILIA PARA O DIA 26 DE ABRIL DE 2026 - 4º DOMINGO DA PÁSCOA

 

O BOM PASTOR: DEUS QUE INSISTE E CUIDA

 

Queridos irmãos e irmãs, povo simples e amado de Deus,

Aleluia! Nesta alegria da Páscoa que enche o nosso coração, celebramos o Domingo do Bom Pastor, dia em que rezamos pelas vocações. Olhemos para o céu azul, para as ruas da nossa cidade, e pensemos: Deus não desiste de nós! Em cada linha da leitura que nos foi proposta, está presente a lógica de um Deus que não se conforma com o fato de as pessoas rejeitarem a sua oferta de salvação e que insiste em desafiá-los, em acordá-los, em questioná-los, até que eles percebam onde está a verdadeira vida e a verdadeira felicidade. Este Deus é, verdadeiramente, o Pastor que nos conduz para as nascentes de água viva. Hoje, as Leituras nos chamam a ser como Ele: cuidadores que fazem a diferença!

No Evangelho, Jesus diz claro: “Eu sou a porta das ovelhas. Quem entra por mim será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem” (Jo 10,9). O ladrão rouba, mata, destrói; mas Jesus vem para dar vida em abundância (Jo 10,10). Ele entra pela porta certa, chama cada ovelha pelo nome, vai à frente (Jo 10,3-4). Não é pastor qualquer: é o Bom Pastor, que dá a vida pelas ovelhas.

Na Primeira Leitura, Pedro grita à multidão: “Deus ressuscitou este Jesus (...). Arrependeam-se e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo” (At 2,36-38). Os ouvintes, cortados no coração, perguntam: “Que devemos fazer?” Pedro insiste: Deus não desiste, convida à conversão, ao batismo, à vida nova! 

A Segunda Leitura nos lembra: éramos como ovelhas desgarradas, mas voltamos ao Pastor e guia das nossas almas (1 Pd 2,25). Cristo sofreu por nós, exemplo para suportar o mal com paciência (1 Pd 2,20-21).

E o Salmo? “O Senhor é o meu pastor, nada me falta. Em verdes pastagens me faz repousar e me conduz a águas tranquilas” (Sl 23,1-2). Mesmo no vale da sombra da morteseu bastão e o seu cajado me dão segurança (Sl 23,4). Deus insiste: conduz, protege, mesa posta até na presença dos inimigos (Sl 23,5).

Santo Tomás de Aquino explica: o Bom Pastor conhece as ovelhas, chama pelo nome, dá vida eterna; ladrões destroem, mas Ele salva.

Irmãos das nossas comunidades simples, na cidade grande, com barulho de carros e correria, a figura de pastor para a cultura moderna e urbana não é bem assimilada. Ovelhas? Pastos? Quem vê isso no asfalto? Mas, se falamos de cuidador, todos entendem! Se quisermos qualificar como “cuidador” mais facilmente todos compreenderão que pode haver “cuidadores e cuidadores”: uns fazem a diferença no seu ambiente, outros são indiferentes.

Pensemos na vizinhança: o vizinho que cuida do idoso sozinho, leva remédio, conversa; faz diferença! Ou a mãe que acorda cedo, cuida dos filhos na favela, ensina com carinho. São cuidadores como Jesus! Mas há os indiferentes: passam reto, reclamam, só pensam em si.

Isso também vale para os cristãos contemporâneos: muitos são comprometidos com a causa do Evangelho e do cuidado com a vida; outros pouco ou nada se empenham. Essa é a mensagem central das três leituras e do salmo que rezamos na liturgia desse quarto domingo da páscoa!  Pedro chama 3000 à conversão – cuidadores nascem!  Cristo sofre por nós – cuida até a morte.

 

HOMILIA PARA O DIA 19 DE ABRIL DE 2026 - 3º DOMINGO DA PÁSCOA

 

JESUS NO NOSSO CAMINHO DIÁRIO

 

Queridos irmãos e irmãs em Cristo Ressuscitado,

Aleluia! Nesta alegria pascal que não cessa, o Senhor nos reúne para o Terceiro Domingo da Páscoa, iluminados pela Palavra que queima o coração. Imaginemos dois discípulos cabisbaixos no caminho de Emaús, carregando tristezas como as nossas: frustrações do dia a dia, notícias de um túmulo vazio que não entendem, esperança perdida. Eis que Jesus caminha ao nosso lado quando menos esperamos, reacendendo a chama da ressurreição! Hoje, o Evangelho de Lucas e o discurso de Pedro nos Atos dos Apóstolos proclamam: Deus ressuscitou o seu Filho dentre os mortos, confirmando as promessas de Davi e selando a vitória da vida sobre a morte. Escutemos esta Boa Nova para as nossas vidas!

 

Meus irmãos, quem de nós já não trilhou o “caminho de Emaús”? Aqueles dois, Cleófas e o companheiro, iam fugindo de Jerusalém, coração partido: «Nós esperávamos que era ele quem iria resgatar Israel» (Lc 24,21). Para eles, o Profeta de Nazaré, crucificado, era sonho desfeito. Nem pararam para analisar as mulheres no túmulo vazio ou os anjos que anunciavam: «Ele está vivo!» (Lc 24,23). Não havia mais esperança. As portas do coração fechadas, como portas trancadas pelo medo.

E nós? Quantas vezes, perante desemprego, doença, família dividida, guerras distantes ou solidão urbana, dizemos: «Tudo acabou»? As tristezas contemporâneas – ansiedade pelo futuro, frustrações no trabalho, luto por entes queridos – nos levam a “Emaús”, vilarejo de desilusão. Mas ouçamos: o caminho dos discípulos de Emaús se compara às nossas tristezas e frustrações contemporâneas, porém quando menos esperamos eis que Jesus caminha ao nosso lado!  Ele se aproxima: «Que estão conversando pelo caminho?» (Lc 24,17), e começa a reacender o que perdemos: a esperança de um novo tempo, garantida pela ressurreição.

No Evangelho, o Estranho – que os olhos deles  não reconhecem  «começando por Moisés e por todos os Profetas, explicou-lhes o que dele estava dito em todas as Escrituras» (Lc 24,27). Jesus nos recorda tudo o que tínhamos perdido ao longo do tempo no que se refere a esperança de um novo tempo! Ele revela: o Messias devia sofrer para entrar na glória (Lc 24,26). Os corações ardem: «Não nos ardia o coração, enquanto nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?» (Lc 24,32).

Esta cena ganha eco na Primeira Leitura: Pedro, cheio do Espírito, proclama aos judeus: «Este Jesus Deus O ressuscitou, livrando-O das garras da morte, porque não era possível que Ele fosse retido por ela» (At 2,24).E cita Davi: «Não abandonarás a minha vida no Hades, nem permitirás que o teu Santo conheça a corrupção» (At 2,27, cf. Sl 16). A cena vivenciada pelos dois discípulos é descrita um pouco mais tarde no texto dos Atos dos Apóstolos: Deus ressuscitou o seu Filho dentre os mortos, para provar o que tinha dito Davi; agora se confirma a vitória da vida sobre a morte!  Pedro testemunha: Jesus, exaltado à direita de Deus, derrama o Espírito (At 2,33). O túmulo vazio não é enigma; é prova!

A Segunda Leitura aprofunda: fomos resgatados «não por bens perecíveis, como prata ou ouro, mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha» (1 Pd 1,19). Vivamos em reverência, com fé no Deus que ressuscitou Jesus.

Irmãos, recordemos São Pedro Damião, ou pensemos em contemporâneos: uma mãe viúva, após perder o filho em acidente. Sozinha na Missa, sente Jesus caminhar: na homilia sobre Emaús, o coração arde. Confessa, recebe a Eucaristia – esperança renasce! Volta à paróquia, serve os pobres. Ou o jovem depressivo, rolando redes sociais de frustrações: ouve num retiro «Não sejam insensatos e tardos de coração» (Lc 24,25), e Jesus explica-lhe as Escrituras pessoais – cruzes como via para glória.

Como os discípulos, não esperávamos análise: o mundo diz “fim de esperança” com crises climáticas, divisões políticas. Mas Jesus caminha: na liturgia, na Palavra, na fração do pão. Teófilo nota: olhos se abrem na Eucaristia, reconhecendo o Senhor. 

Esta Palavra aplica-se à nossa vida: no trânsito irritado, Jesus pergunta: «sobre o que estão conversando?» No hospital, explica Escrituras de esperança. Na família tensa, parte o pão da reconciliação. Os discípulos não tinham esperado para fazer qualquer análise das conversas sobre o túmulo vazio, para eles já não existia mais esperança – mas Jesus transforma desespero em missão: correm de volta!  Assim também nos: voltemos dos nossos caminhos de “Emaús” – trabalho estagnado, relacionamentos partidos – voltemos à comunidade, à Igreja viva.

 

 

HOMILIA PARA O DIA 12 DE ABRIL 2026 - 2º DOMINGO DA PÁSCOA - DIA DA DIVINA MISERICÓRDIA

 

A Comunidade Cristã:

Corpo Vivo em Torno de Cristo Ressuscitado

Queridos irmãos e irmãs em Cristo Ressuscitado,

Nesta oitava da Páscoa, reunimo-nos como povo de Deus para celebrar o Domingo da Divina Misericórdia, um dom que o Senhor derrama sobre nós com abundância. Imaginemos os discípulos trancados por medo, noite escura da alma, e de repente, Jesus aparece dizendo: “A paz esteja com vocês” (Jo 20,19). Ele, o Vivo, o Centro de tudo! Hoje, as Leituras Sagradas convidam-nos a contemplar como Cristo Ressuscitado anima a nossa comunidade, transforma dúvidas em fé e nos envia com esperança para um mundo sedento de misericórdia.

Na Primeira Leitura: os primeiros cristãos “dedicavam-se à doutrina dos apóstolos, à comunhão, à fração do pão e às orações” (At 2,42). Viviam unidos, partilhavam bens, louvavam Deus com corações alegres. Não era utopia; era prova viva de que Jesus está entre eles, Ressuscitado! A – reverência – invadia todos, porque os sinais dos apóstolos confirmavam: Ele vive! 

No Evangelho, Jesus aparece no meio deles, apesar das portas fechadas pelo medo dos judeus. “Mostrou-lhes as mãos e o lado” (Jo 20,20), e encheu-os de alegria. Ele é o centro da comunidade cristã que se estrutura na pessoa e na doutrina de Jesus. Dele recebe a vida que anima e permite enfrentar dificuldades e perseguições. Três vezes proclama: “A paz esteja com vocês” (Jo 20,19.21.26), reconciliando-os com Deus, consigo mesmos e entre si. Sopra o Espírito: “Recebam o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoarem os pecados, serão perdoados” (Jo 20,22-23). A comunidade nasce aí, na liturgia da Palavra e na Eucaristia, no amor fraterno, no testemunho corajoso. É nela que as pessoas encontram provas de que Jesus está vivo!

A comunidade não é clube fechado; é corpo vivo, enviado: “Como o Pai Me enviou, também Eu os envio” (Jo 20,21).

E Tomé? Ausente na primeira aparição, duvida: “Se eu não vir nas suas mãos o sinal dos pregos (...) não acreditarei” (Jo 20,25). Uma semana depois, Jesus volta: “Põe aqui o dedo e vê as minhas mãos; estende a sua mão e coloca no meu lado. Não seja incrédulo, mas fiel” (Jo 20,27). Tomé exclama: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20,28). Jesus responde: “Porque Me viu, você acreditou. Bem-aventurados os que não viram e creram” (Jo 20,29).

Irmãos, a experiência de Tomé não é exclusiva das primeiras testemunhas; todos os cristãos de todos os tempos podem fazer esta mesma experiência! Quantos de nós, como ele, nos fechamos em dúvidas perante cruzes – doença, perda, solidão? Jesus misericordioso vem ao nosso encontro, convida ao toque da fé: na Eucaristia, nos pobres, na oração.

Recordemos a história de Santa Faustina, apóstola da Misericórdia: via Jesus ferido, mas vivo, pedindo confiança total. Hoje, Ele nos diz: “Não duvidem, crêiam! Eu sou o seu Senhor e seu Deus”.

A Segunda Leitura eleva-nos: “Bendito seja Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo: pela sua grande misericórdia, Ele nos regenerou para uma esperança viva, pela ressurreição de Jesus Cristo dos mortos” (1 Pd 1,3). Apesar de provações – “sofrem agora um pouco, por diversos motivos” (1 Pd 1,6) a fé genuína, mais preciosa que o ouro, leva à salvação. A identificação de cada crente com Cristo – nomeadamente com a sua entrega por amor ao Pai e ao mundo– conduzirá à ressurreição. Por isso, os crentes são convidados a percorrer a vida com esperança de olhos no horizonte onde se desenha a salvação definitiva.

O Salmo ecoa: “O seu amor é para sempre!” (Sl 118,2-4). Na comunidade primitiva, esta esperança gerava partilha radical: vendiam bens, distribuíam segundo necessidades (At 2,45). 

Irmãos, a comunidade cristã tem de ser uma proposta diferente, que mostra aos homens como o amor, a partilha, a doação, o serviço, a simplicidade e a alegria são geradores de vida e não de morte! Num mundo de egoísmo, competições, divisões, sejamos como aqueles primeiros cristãos: unidos na fração do pão – Eucaristia viva! – alegres no louvor, generosos no serviço. O Ressuscitado anima-nos para enfrentar perseguições: sejam misericórdia uns para os outros, perdoem setenta vezes sete.

1.               Reunam-se em torno de Jesus: Toda semana, fração do pão e Missa, comunhão fraterna – não faltem!

2.               Façam a experiência de Tomé: Na confissão, toquem as chagas de Cristo; creiam sem ver, com atos de misericórdia (visitem doentes, alimentem famintos).

3.               Identifiquem-se com Cristo: Ofereçam sofrimentos com esperança; partilhem bens – tempo, sorriso, ajuda material.

4.               Sejam proposta viva: Na família, trabalho, rua, mostrem amor que gera vida: simplicidade no consumo, serviço aos idosos, alegria no louvor.

Assim, o mundo acreditará: Jesus vive em nós!

Queridos irmãos, no Domingo da Divina Misericórdia, Jesus Ressuscitado é o nosso Centro: anima a comunidade, cura dúvidas, infunde esperança, envia-nos como sinal de vida. Como em Atos, sejamos prova viva Dele; como Tomé, cremos exclamando “Meu Senhor!”; como Pedro, vivemos na esperança da salvação.

Vão em paz, misericordiosos como o Pai! E rezemos juntos a oração da Divina Misericórdia:

“Deus eterno, Pai misericordioso, que revelastes o coração amoroso do Seu Filho Jesus, pela intercessão de Santa Faustina, concede-nos a graça da Divina Misericórdia: para que, crendo sem ver, vivamos na esperança e sejamos sinal de vida para o mundo. Amém.”

 

terça-feira, 24 de março de 2026

HOMILIA PARA O DIA 05 DE ABRIL - DOMINGO DE PÁSCOA

 

A RESSURREIÇÃO COMO FRUTO

DE UMA VIDA DE OBEDIÊNCIA

 

Queridos irmãos e irmãs em Cristo Ressuscitado,
aleluia! Nesta madrugada pascal, o sepulcro está vazio, a pedra removida, e o Senhor vive!  Reparemos como a Ressurreição de Jesus não é um fato isolado, mas o 
culminar de uma vida vivida na obediência ao Pai e na doação a todos. Após percorrer o mundo “fazendo o bem e libertando todos os que eram oprimidos pelo demônio (At 10,38), e morrer na cruz como consequência desse caminho, Deus O ressuscitou. Eis o tema desta homilia: A Ressurreição é fruto de uma vida ao serviço do amor; e o nosso chamado a testemunhá-la no mundo novo do “primeiro dia da semana”!

As leituras proclamam esta verdade. Na Primeira Leitura, São Pedro confessa: “Deus ungiu Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder; Ele andou fazendo o bem e curando a todos os que estavam sob o poder do diabo, porque Deus estava com Ele” (At 10,38). Jesus não foi um mártir qualquer; sua vida foi obediência total ao Pai, doação aos pobres, aos doentes, aos pecadores. Na Cruz, esse caminho culmina: “Ele entregou a vida por nós, e nós conhecemos o amor” (1 Jo 3,16). E Deus, fiel às promessas, “O ressuscitou ao terceiro dia e quis que fosse manifesto” (At 10,40).

O Salmo responsorial ecoa: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular. Isto é obra do Senhor, e é admirável aos nossos olhos” (Sl 118,22-23) A “pedra rejeitada” é Cristo, esmagado na Cruz, mas elevado na glória! São Paulo, na Segunda Leitura, exorta: “Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde Cristo se encontra assentado à direita de Deus. Pensai nas coisas do alto, e não nas da terra” (Cl 3,1-2). A Ressurreição não é mágica; é a vida nova e plena como ponto de chegada de uma existência colocada ao serviço do projeto salvador e libertador de Deus. Como ensina o Catecismo“Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que dormem” (1 Cor 15,20), garantindo nossa própria ressurreição pelo Batismo.

No Evangelho, Maria Madalena corre ao túmulo e volta avisar aos discípulos, dois deles correra, ao túmulo: “Chegando, porém, o outro discípulo, que chegara primeiro ao sepulcro, viu e acreditou” (Jo 20,8). Não entenderam ainda as Escrituras, mas o túmulo vazio grita: a Morte foi vencida! 

Irmãos, imagine Santa Teresa de Calcutá, entre os moribundos de Calcutá: “fazendo o bem”, lavando feridas, libertando oprimidos pela miséria. Sua vida não parou na Cruz da indiferença; nela, Cristo ressuscitava diariamente!  Ou pense nos mártires do século XX, como Maximiliano Kolbe: na fome de Auschwitz, doou-se por um pai de família. “A ressurreição de Jesus é a consequência de uma vida gasta fazendo o bem e a libertando os oprimidos”. Hoje, em nossas cidades, quem vence o egoísmo familiar, a mentira no trabalho, a injustiça social – sempre que alguém se esforça por fazer triunfar o amor –, está ressuscitando!

Como as mulheres no sepulcro (Mc 16,1-8) ou os discípulos de Emaús (Lc 24,13-35), cujos corações ardiam ao reconhecer Jesus no partir do pão, nós fazemos experiência diária do Ressuscitado: no irmão necessitado, na Eucaristia, nos milagres da graça.