Fé com
sementes de amor!
À luz do profeta Joel, escutamos:
“Convertem-se a mim de todo o coração, com jejum, lágrimas e luto” (Jl 2,12).
Não é aparência, mas coração rasgado. Neste tempo favorável, a comunidade se
reúne em humildade, pede perdão e se oferece como terra boa, onde a graça de
Deus possa germinar compaixão e acolhida aos que não têm onde reclinar a
cabeça.
Como em Joel, clamamos entre o pórtico e o altar: “Poupa,
Senhor, o seu povo!” (Jl 2,17). Nos rostos cansados dos que vivem nas ruas,
Deus nos visita e nos chama à conversão. A penitência que agrada ao Senhor não
se limita a ritos: ela se torna pão partilhado, cobertor estendido, porta
aberta, escuta atenta e política pública defendida. O jejum do egoísmo floresce
em mesa preparada para quem tem fome de pão e de dignidade.
Em Cristo, ouvimos o clamor: “Deixem-se reconciliar com Deus”
(2Cor 5,20). Reconciliar-se com Deus é reconciliar-se com o irmão. A Igreja, em
missão, faz-se embaixadora de Cristo junto aos descartados, anunciando que hoje
é “o tempo favorável”, hoje é “o dia da salvação” (2Cor 6,2). Não esperemos
outra hora: a graça passa agora pelas calçadas, deita-se nos bancos da praça, chama
pelo nome nas noites frias.
O Senhor que se fez pobre por nós, para nos enriquecer com sua
pobreza, convoca-nos à conversão concreta: rever escolhas, partilhar bens,
revisitar prioridades comunitárias. A penitência de nossas comunidades
populares é simples e fecunda: mutirões de solidariedade, visitas, rodas de
conversa, articulação com serviços públicos, pastoral de rua. Assim, nossa fé
lança sementes de amor que brotam em moradia digna e pertencimento.
Escutemos Jesus no Evangelho: “Guardem-se de praticar a justiça
na frente dos outros, para serem vistos” (Mt 6,1). Quando jejuarem, quando
derem esmola, quando orarem, façam no segredo do coração. A penitência
evangélica não busca aplauso: busca o Rosto do Pai. O Deus que vê o escondido
reconhece, no gesto humilde, a morada onde deseja habitar.
A esmola que sobe como incenso é a caridade organizada. Não é
moeda lançada por pena, mas compromisso fraterno. É transformar a paróquia em
casa de portas abertas, criar redes com outras igrejas, movimentos e poder
público; é promover acolhimento emergencial e lutar por políticas de habitação.
O Pai, que vê no segredo, abençoa a justiça que nasce da oração e se derrama em
serviço.
O jejum que Jesus pede é escola de liberdade. Jejuar para que
alguém coma, renunciar para que outro tenha, simplificar para que muitos vivam
melhor. Ao domar a pressa e a indiferença, descobrimos tempo para o encontro:
um nome, uma história, uma mão dada. Nosso jejum rompe correntes e devolve
dignidade aos que foram esquecidos.
A oração, feita na intimidade do coração, acende a lamparina da
esperança. Diante do Pai, apresentamos a realidade dura das ruas e deixamos que
sua Palavra nos converta. A liturgia nos modela: do altar, levamos a paz; da
mesa eucarística, aprendemos a partir e repartir. Quem comunga o Pão torna-se
pão partido para muitos.
“Nossa fé se faz sementes de amor.” Semente é pequena, mas sabe
esperar. Semeemos presença, escuta, formação, compromisso social. Semeemos com
lágrimas, reguemos com perseverança e colheremos com alegria: famílias
reconstituídas, políticas de moradia, comunidades que acolhem, crianças
protegidas, idosos respeitados. Onde a Igreja semeia amor, Deus faz crescer
moradas de misericórdia.
Que o Senhor tenha compaixão de seu povo (Jl 2,18) e faça de nós
sinais de sua ternura. Renovados pela penitência e pela conversão, sigamos
Jesus que veio morar entre nós: aproximemo-nos dos que não têm casa,
reconheçamos neles o próprio Cristo, e, como corpo vivo da Igreja, façamos de
nossas comunidades um abrigo de fé, uma tenda de justiça e um lar de
fraternidade. Hoje é o tempo favorável, hoje é o dia da salvação. Amém.