QUARESMA,
TEMPO DE ESCUTAR O FILHO AMADO
Irmãos e irmãs, hoje a Palavra de
Deus nos conduz ao monte da Transfiguração (Mt 17,1-9) e ao coração do
testemunho. (2Tm 1,8b-10). Ali Deus revela quem é Jesus e quem devemos ser nós:
discípulos que escutam o Filho amado e servidores que anunciam calorosamente a
salvação. Entre o brilho do Tabor e as sombras de Jerusalém, aprendendo que a
fé não nos afasta da cruz, mas nos faz atravessá-la rumo à vida nova.
No Tabor, os discípulos veem por instantes a glória que
habita em Jesus. É como se Deus abrisse
uma janela do céu para fortalecer os corações cansados. A voz do Pai ressoa:
"Este é o meu Filho muito amado. Escutai-O!". A fé começa pela
escuta. Escutar Jesus é acolher sua pessoa, seu Evangelho e seu caminho — não
apenas suas consolações, mas também seus critérios.
A grande tentação é permanecer nas tendas do conforto
espiritual, congelar a experiência do monte e evitar a descida para a vida
real. Mas Jesus toca nos discípulos e os faz levantar. Ele nos lembra que o
encontro com sua glória não nos aliena do mundo: capacita-nos para servir no
vale onde estão as dores, as injustiças e as urgências humanas.
Paulo, escrevendo a Timóteo, convoca a não nos envergonharmos do
testemunho e a participar dos sofrimentos pelo Evangelho, apoiados na graça. O
anúncio da salvação não é um adereço de fé; é sua pulsação. Pode custar:
riscos, medos, oposição. Mas o Deus que nos chama é o mesmo que nos fortalece;
Ele nos salvou e nos deu uma vocação santa. Não caminhamos sozinhos.
Entre o Tabor e Jerusalém, amadureceu a coragem cristã: confie
em Jesus e ouse segui-lo, mesmo quando a estrada passa pela cruz. A
Transfiguração nos garante que a última palavra não é a morte, mas a Páscoa.
Por isso, o discípulo pode descer do monte com esperança ativa: não fugimos do
mundo; transfiguramos o mundo com a luz de Cristo.
E o que o Senhor nos pede, hoje, de modo concreto? Escutando o
Filho, registramos no rosto dos pobres o lugar de sua presença. Não há verdadeira
contemplação que não se torne compaixão. A Palavra nos chama a uma
responsabilidade social inadiável: colaborar para uma sociedade onde todos
tenham um teto, pão e dignidade. A fé que vê a glória no Tabor deve ver a chaga
do irmão ao lado.
Ter um lar não é luxo; é condição básica para a vida florescer.
Como Igreja e como cidadãos, somos chamados a unir políticas públicas oração e
ação: apoiar políticas de habitação digna, promover mutirões e parcerias
solidárias, abrir espaços eclesiais para acolhimento emergencial, promover
formação profissional e apoio jurídico para famílias em vulnerabilidade.
Caridade que não esquece a justiça; justiça que se alimenta da caridade.
Talvez isso nos custe: incompreensões, cansaço, prioridades
difíceis. Mas o Evangelho pede telhados e mesas compartilhadas, não apenas
discursos. O anúncio “de cima dos telhados” de que fala a segunda leitura pode
começar pelo telhado que ajudamos alguém a ter. A Boa Notícia ganha complemento
quando cria boas notícias na vida concreta das pessoas.
Voltemos então do monte com os ouvidos abertos: “Escutai-O”. Ele
nos diz: “Levantai-vos, não tenhais medo”. Que cada comunidade se pergunte:
quem, na nossa cidade, dorme ao relento? O que podemos fazer esta semana,
juntos, para mudar essa história? Pequenos passos, perseverantes, transfiguram
realidades.
Que a Eucaristia nos fortaleça
para descer com Jesus e, com Ele, erguer irmãos. O Pai nos mostra o Filho
amado; o Filho nos mostra os pobres amados do Pai; e o Espírito nos dá coragem
para servir. Seguiremos o caminho de Jerusalém com confiança: da cruz brotará a
vida — e, pela nossa fé em ação, muitos encontrarão abrigo, esperança e um novo
começo. Amém.