segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

HOMILIA PARA O DIA 22 DE FEVEREIRO - SEGUNDO DOMINGO DA QUARESMA

 

QUARESMA:  TEMPO PARA CONTEMPLAR 

O SOPRO DE DEUS

1.   Irmãos e irmãs, iniciamos a Quaresma olhando o sopro de Deus que dá vida ao ser humano (Gn 2). Fomos criados para a comunhão, para a alegria que não passa. No jardim, Deus nos coloca como guardiões da criação e nos indica o caminho da vida.

2.   Mas a serpente sussurra: “você não precisa de ninguém, pode ser igual a Deus”. A tentação do egoísmo e da autossuficiência promete liberdade, mas rouba a confiança. Quando o coração se fecha, perdemos o sabor do jardim e ficamos nus diante das nossas fragilidades (Gn 3).

3.   A Palavra ensina: felicidade não é acumular, é acolher. Quem escuta o Senhor encontra direção; quem se guia só pelo próprio desejo cai no vazio das coisas efêmeras. A Quaresma é tempo de escolher de novo a fonte verdadeira.

4.   No deserto, Jesus enfrenta as tentações (Mt 4). Ele recusa transformar pedra em pão para si. O pão sem Palavra não sustenta. Primeiro Deus, depois o resto. “Nem só de pão vive o homem”: é o jejum que educa o desejo e devolve liberdade.

5.   Jesus também rejeita o espetáculo do Templo. Fé não é show, é confiança filial. Não se brinca com Deus. A oração quaresmal cura a ansiedade de provar valor e nos reconcilia com nossa pequenez amada.

6.   Por fim, Jesus recusa o poder fácil. Não se dobra ao ídolo do sucesso. Adorar é servir somente a Deus. A esmola, feita com discrição, quebra a força da ganância e abre espaço para a partilha que salva.

7.   Essas opções de Jesus iluminam nossas casas. A vida familiar acontece em lugares apertados, ocupações, áreas rurais, favelas, apartamentos alugados. Onde moramos molda o diálogo, a paz das crianças, a intimidade do casal, a oração da “Igreja doméstica”.

8.   Pastoral Familiar não pode ser indiferente: lutar por moradia digna é obra de misericórdia. Uma porta que fecha com segurança, um quarto silencioso, uma mesa com pão e escuta, tudo isso é evangelho encarnado. Política pública justa e solidariedade comunitária são expressão de fé.

9.   Na Quaresma, convido: organizar um cantinho de oração em casa; fazer uma refeição semanal mais simples para partilhar com quem precisa; reservar tempo de escuta em família; visitar uma família vizinha em situação precária; rezar com a Palavra do dia.

10.                    Entre o jardim e o deserto, escolhemos com Jesus. Se abraçarmos o projeto de Deus, conheceremos vida plena; se servirmos aos ídolos, colheremos vazio. Que o Espírito nos conduza: jejum que liberta, oração que confia, caridade que constrói lares e comunidades onde Deus habita. Amém.

 

HOMILIA PARA O DIA 18 DE FEVEREIRO - QUARTA FEIRA DE CINZAS

 

Fé com sementes de amor!

À luz do profeta Joel, escutamos: “Convertem-se a mim de todo o coração, com jejum, lágrimas e luto” (Jl 2,12). Não é aparência, mas coração rasgado. Neste tempo favorável, a comunidade se reúne em humildade, pede perdão e se oferece como terra boa, onde a graça de Deus possa germinar compaixão e acolhida aos que não têm onde reclinar a cabeça.

Como em Joel, clamamos entre o pórtico e o altar: “Poupa, Senhor, o seu povo!” (Jl 2,17). Nos rostos cansados dos que vivem nas ruas, Deus nos visita e nos chama à conversão. A penitência que agrada ao Senhor não se limita a ritos: ela se torna pão partilhado, cobertor estendido, porta aberta, escuta atenta e política pública defendida. O jejum do egoísmo floresce em mesa preparada para quem tem fome de pão e de dignidade.

Em Cristo, ouvimos o clamor: “Deixem-se reconciliar com Deus” (2Cor 5,20). Reconciliar-se com Deus é reconciliar-se com o irmão. A Igreja, em missão, faz-se embaixadora de Cristo junto aos descartados, anunciando que hoje é “o tempo favorável”, hoje é “o dia da salvação” (2Cor 6,2). Não esperemos outra hora: a graça passa agora pelas calçadas, deita-se nos bancos da praça, chama pelo nome nas noites frias.

O Senhor que se fez pobre por nós, para nos enriquecer com sua pobreza, convoca-nos à conversão concreta: rever escolhas, partilhar bens, revisitar prioridades comunitárias. A penitência de nossas comunidades populares é simples e fecunda: mutirões de solidariedade, visitas, rodas de conversa, articulação com serviços públicos, pastoral de rua. Assim, nossa fé lança sementes de amor que brotam em moradia digna e pertencimento.

Escutemos Jesus no Evangelho: “Guardem-se de praticar a justiça na frente dos outros, para serem vistos” (Mt 6,1). Quando jejuarem, quando derem esmola, quando orarem, façam no segredo do coração. A penitência evangélica não busca aplauso: busca o Rosto do Pai. O Deus que vê o escondido reconhece, no gesto humilde, a morada onde deseja habitar.

A esmola que sobe como incenso é a caridade organizada. Não é moeda lançada por pena, mas compromisso fraterno. É transformar a paróquia em casa de portas abertas, criar redes com outras igrejas, movimentos e poder público; é promover acolhimento emergencial e lutar por políticas de habitação. O Pai, que vê no segredo, abençoa a justiça que nasce da oração e se derrama em serviço.

O jejum que Jesus pede é escola de liberdade. Jejuar para que alguém coma, renunciar para que outro tenha, simplificar para que muitos vivam melhor. Ao domar a pressa e a indiferença, descobrimos tempo para o encontro: um nome, uma história, uma mão dada. Nosso jejum rompe correntes e devolve dignidade aos que foram esquecidos.

A oração, feita na intimidade do coração, acende a lamparina da esperança. Diante do Pai, apresentamos a realidade dura das ruas e deixamos que sua Palavra nos converta. A liturgia nos modela: do altar, levamos a paz; da mesa eucarística, aprendemos a partir e repartir. Quem comunga o Pão torna-se pão partido para muitos.

“Nossa fé se faz sementes de amor.” Semente é pequena, mas sabe esperar. Semeemos presença, escuta, formação, compromisso social. Semeemos com lágrimas, reguemos com perseverança e colheremos com alegria: famílias reconstituídas, políticas de moradia, comunidades que acolhem, crianças protegidas, idosos respeitados. Onde a Igreja semeia amor, Deus faz crescer moradas de misericórdia.

Que o Senhor tenha compaixão de seu povo (Jl 2,18) e faça de nós sinais de sua ternura. Renovados pela penitência e pela conversão, sigamos Jesus que veio morar entre nós: aproximemo-nos dos que não têm casa, reconheçamos neles o próprio Cristo, e, como corpo vivo da Igreja, façamos de nossas comunidades um abrigo de fé, uma tenda de justiça e um lar de fraternidade. Hoje é o tempo favorável, hoje é o dia da salvação. Amém.

 

HOMILIA PARA O DIA 15 DE FEVEREIRO DE 2025

 

SEGUIR O MESTRE COM ENTUSIASMO

Irmãos e irmãs, hoje a Palavra nos apresenta um caminho de vida. Deus coloca diante de nós a escolha: seguir seus caminhos, que levam à alegria e à paz, ou seguir só a nossa cabeça, que tantas vezes termina em dor e confusão. Ele não nos força; Ele convida. A decisão é nossa.

O livro do Eclesiástico lembra: Deus nos deu liberdade. Podemos optar pela vida ou pela morte, pelo bem ou pelo mal. Seus mandamentos não são peso, são placas de sinalização na estrada da vida. Quem segue esses sinais anda seguro, mesmo nas curvas e nas tempestades.

Paulo nos fala de um segredo bonito: o plano de Deus, preparado desde sempre para quem O ama. É a “sabedoria de Deus”, que o mundo não entende com livros e grandes discursos. Essa sabedoria se reconhece com o coração, no amor que Deus derramou por nós em Jesus.

Esse mistério ficou claro na cruz. Ali, Jesus não só falou de amor: Ele amou até o fim. Na cruz, vemos “ao vivo e a cores” que Deus é por nós, não contra nós. Quem olha para a cruz encontra força para recomeçar e descobre o caminho da salvação.

Salvação, aqui, não é fuga da vida. É viver plenamente: ser gente de paz, de verdade, de partilha, de comunhão. É deixar Deus curar nossas feridas e transformar nossas relações. É aprender a amar como Jesus amou.

O Evangelho nos chama a ir além do “mínimo”. Não basta cumprir a letra fria da Lei. Jesus aponta para o coração: quem alimenta raiva e desprezo já começou a romper a vida do irmão; quem reduz o outro a objeto já feriu a dignidade que Deus deu; quem fala sem verdade estraga a confiança que sustenta a comunidade.

Por isso, Jesus nos convida a uma justiça maior: reconciliar antes de oferecer, respeitar antes de desejar, falar simples e verdadeiro – “sim, sim; não, não”. É o compromisso inteiro, não metade de coração. É fé que se nota no trato diário, em casa, no trabalho, na rua.

Para escolher a vida, precisamos escutar a Palavra e praticá-la. Os mandamentos são caminho seguro: não matar, não trair, não mentir, não usar o nome de Deus à toa. Mas Jesus mostra o espírito por trás da letra: cuidar do irmão, honrar o casamento, cultivar a verdade, rever atitudes que ferem.

Deus nos preparou algo grande “para aqueles que O amam”. Essa promessa começa já aqui, quando a comunidade vive a caridade: perdoa, partilha, acolhe, defende os pequenos. O Espírito nos dá força para dar passos concretos, mesmo quando custa.

Hoje, diante do altar, renovemos nossa escolha: queremos a vida, queremos a sabedoria de Deus, queremos seguir Jesus com entusiasmo. Que nosso “sim” seja inteiro, nosso olhar limpo, nossa palavra verdadeira e nosso amor generoso. Assim, caminharemos firmes, guiados pela cruz que ilumina e salva. Amém.

 

sábado, 31 de janeiro de 2026

HOMILIA PARA O DIA 08 DE FEVEREIRO DE 2026 - 5º DOMINGO COMUM

 

                    BRILHE A SUA LUZ...


Reunidos na presença do Senhor, escutamos a Palavra que nos convoca  a realizar gestos de caridade concreta: “Reparte o pão com o faminto, acolhe em casa os pobres e peregrinos. Quando encontrar um nu, cobre-o, e não despreze a sua carne. Então, brilhará sua luz como a aurora” (Is 58,7-8).

O culto que agrada a Deus nasce de corações que O amam e obedecem aos seus mandamentos. Não é feito de gestos teatrais, mas de misericórdia que se torna pão, abrigo, cuidado e ternura.

O povo do Antigo Testamento foi chamado, libertado e aliançado por Deus para ser luz entre as nações. A mesma vocação repousa hoje sobre a Igreja e sobre cada cristão: resplandecer a bondade de Deus por meio de obras justas e compassivas.

A liturgia que celebramos não termina no altar; prolonga-se nas ruas, nas casas, nas feridas do povo. O “Amém” que pronunciamos aqui precisa transformar-se em pão repartido e em portas abertas.

Quando a fé se traduz em partilha, a aurora desponta. Quando o amor se faz gesto concreto, a luz rompe a noite. Quando a justiça se ajoelha diante do pobre, o rosto de Deus se revela.

Isaías denuncia os ritos vazios; o Senhor deseja um jejum que rompa a indiferença e cubra a nudez da necessidade humana. Assim, nossa oração encontra verdade e força.

Jesus retoma esse chamado e o eleva em nós: “Vocês são a luz do mundo… Não se acende uma lâmpada para colocá-la debaixo do alqueire, mas sobre o candelabro, onde brilha para todos os que estão em casa” (Mt 5,14-15).

Ser luz não é um título de honra, mas uma responsabilidade: iluminar para que outros vejam, aquecer para que outros vivam, indicar caminhos para que ninguém se perca.

A cidade sobre o monte é a comunidade reunida, visível e fiel. Seu brilho não provém do espetáculo, mas da caridade silenciosa, do perdão insistente, da esperança que não se cansa.

Nesta celebração, apresentemos ao Senhor nosso desejo de coerência: que cada gesto litúrgico corresponda a um gesto de amor; que cada hino encontre eco em uma visita; que cada comunhão gere comunhão com os últimos.

Se acolhermos o pobre, a luz irrompe; se nos cobrimos de compaixão, a aurora nascerá para muitos; se partilharmos com generosidade, o altar se estenderá até a mesa dos famintos.

Que nossa comunidade seja candelabro e não esconderijo; casa aberta e não fortaleza; sinal de Aliança e não ritualismo. Assim, o mundo verá “as boas obras e dará glória ao Pai que está nos céus” (Mt 5,16).

Peçamos que o Senhor, converta nossos ritos em vida: nos dê mãos que repartam, ombros que sustentam, olhos que reconheçam, passos que se aproximam. Faça de nós a luz que nasce com a aurora.

Ao final desta Eucaristia, sejamos enviados como Evangelho vivo: pão partilhado, casa que acolhe, manto que cobre, luz que não se esconde. Para a glória de Deus e para a salvação do povo. Amém.

 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

HOMILIA PARA O DIA 01 DE FEVEREIRO DE 2026 - 4º DOMINGO DO TEMPO COMUM

 

ACOLHER  A SABEDORIA DE CRISTO

A sabedoria paradoxal de Deus que escolhe o que é fraco para confundir o forte, o que é simples para desautorizar o que se julga nobre, o que nada é para reduzir a nada o que se crê absoluto. A liturgia registra que a vocação cristã nasce nesse terreno de humildade: não dá grande importância aquilo que é da carne, nem muitos poderosos ou nobres, mas eleitos para que ninguém se glorie diante do Senhor. Em Cristo, Deus se tornou para a Igreja sabedoria, justiça, santificação e redenção; por isso, “quem se gloria, glorie-se no Senhor”. A comunidade é convidada a considerar a própria pequenez como espaço de graça: menos autopromoção, mais gratidão; menos vanglória, mais louvor. A grandeza que sustenta o povo santo não é a força dos números nem a sedução do prestígio, mas a presença do Crucificado-Glorificado, onde todo poder se desfaz e toda esperança se acende.

No evangelho a comunidade é convidada a subir a montanha com Jesus e ouvir a Carta Magna do Reino: as bem-aventuranças. A liturgia contempla o Mestre que se senta, abre a boca e ensina a felicidade possível neste mundo sob o sopro do Espírito: bem-aventurados os pobres em espírito, os mansos, os que choram, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os construtores da paz, os perseguidos por causa da justiça. Não é consolo barato, é promessa firme enraizada na fidelidade de Deus: dos pobres é o Reino, os que chorarem serão consolados, os mansos herdarão a terra, os famintos de justiça serão saciados, os misericordiosos alcançarão misericórdia, os puros verão a Deus, os pacificadores serão chamados filhos de Deus, aos perseguidos pertence a Reino. O olhar de Jesus inverte critérios: a felicidade não coincide com o sucesso, o poder e o acúmulo, mas com o coração disponível, a justiça desejada, a misericórdia praticada, a paz construída a duras penas.

Entre o chamado paulino à humildade e a escola de felicidade do Sermão da Montanha, a Palavra indica um caminho de conversão concreta. A Igreja aprende que sua força está no Evangelho vívido: pobreza de espírito que desapega, mansidão que desarma, lágrimas proporcionadas que se tornam intercessão, fome de justiça que move escolhas públicas, misericórdia que cura vínculos, pureza de coração que purifica interesse, paz que se constrói com diálogo e coragem, fidelidade que apoia incompreensões por amor ao Reino. A comunidade é convidada a traduzir as bem-aventuranças em práticas: economia de partilha, linguagem reconciliadora, proximidade com os que sofrem, integridade nas relações e no trabalho, educação dos pequenos para a verdade e para o bem. Ali onde o mundo enaltece o “forte” e o “vencedor”, a assembleia aponta o Cordeiro; e, ali onde as forças faltam, a graça se faz suficiente, para que ninguém se glorie senão no Senhor.

Por fim, a assembleia suplica a graça de viver estas palavras como identidade e missão. Que cada batizado reconheça, na própria pobreza, a possibilidade de acolher a sabedoria que é Cristo; que encontre, nas lágrimas, consolo; na mansidão, firmeza; na fome de justiça, perseverança; na misericórdia, cura; na pureza, visão; na paz, filiação; na perseguição, bem-aventurança. Sustentada pela Eucaristia, a Igreja pede um coração pobre e livre, capaz de ir às periferias com alegria discreta, e de permanecer fiel quando a recompensa não vem. E que, saindo deste celebração, a comunidade leve às ruas o perfume das bem-aventuranças: menos ostentação, mais serviço; menos ruído, mais escuta; menos divisão, mais paz. Então, o mundo verá que a loucura de Deus é mais sábia que os homens, e que a alegria prometida pelo Senhor já floresce no hoje de quem se gloria apenas nele.

 

HOMILIA PARA O DIA 25 DE JANEIRO DE 2026 - 3º DOMINGO DO TEMPO COMUM

 

A CRUZ É O EIXO DA COMUNHÃO

O clamor apostólico da carta de Coríntios pede unidade de pensamento e de coração no nome de Jesus Cristo. Paulo denuncia as facções que se erguem ao redor de nomes humanos — “eu sou de Paulo”, “eu de Apolo”, “eu de Cefas” — e pergunta com soa com firmeza: “Por acaso Cristo está dividido?” A liturgia confirma que a tentativa de absolutizar líderes, estilos e preferências atravessa os tempos e fere o Corpo. A cruz de Cristo, não a eloquência humana, é o eixo que sustenta a comunhão; o Evangelho não se apoia na sedução das palavras, mas na força humilde do Crucificado que reconcilia. A comunidade é chamada a purificar interessados, a renunciar aos rótulos que segregam, a buscar a unanimidade no essencial: a fé no Senhor, o amor fraterno, a missão compartilhada. Onde Cristo é o centro, as diferenças se tornam riqueza; onde o ego se impõe, a graça se perde em disputas estéreis.

No evangelho a assembleia contempla o início do ministério de Jesus na Galileia das nações, terra de sombra visitada pela grande luz. Nela se cumpre a profecia: os que habitavam a região escura veem despontar um novo dia. O anúncio é claro e urgente: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo.” Em seguida, à beira do lago, o Senhor chama Simão e André, Tiago e João; Eles deixam redes e barca, pai e profissão, para segui-lo. A liturgia percebe a mesma dinâmica que cura a divisão: olhar fixo em Cristo, conversão do coração, aceitação pronta ao chamado. Jesus percorre cidades e povoados, ensinando, proclamando o Evangelho do Reino e curando toda enfermidade e doença: Palavra que ilumina, Boa-Nova que transforma, misericórdia que toca as feridas. O discipulado nasceu desse encontro que reordena prioridades e faz da vida um “seguir”.

Entre o apelo paulino à unidade e a convocação de Jesus às margens do lago, a liturgia propõe um caminho concreto para a comunidade. Converter-se é deslocar o centro: do “meu grupo” para o Corpo de Cristo; do faça-se “meu jeito” para a vontade do Senhor; da competição para a colaboração. A paróquia é convidada a reconhecer e curar fraturas sutis: preferência por ministros e estilos que vira partidarismo, comparações que geram suspeitas, vaidades travestidas de zelo. A medicina é a mesma de Mateus: ouvir o chamado, deixar as redes do orgulho, segui-lo de perto, na liturgia participada, na caridade operosa. Unir mente e coração no nome de Jesus também significa alinhar práticas: conselhos que discernem juntos, ministérios que se articulam, formação comum, oração que intercede uns pelos outros. Assim, a luz que brilhou na Galileia atravessa hoje as sombras das divisões e faz nascer comunhão missionária.

Por fim, a assembleia suplica a graça de viver “um só coração e uma só alma” para anunciar o Evangelho sem vaidade de palavras, mas com a força da cruz. Que cada batizado ouça, neste Domingo, a voz que chama pelo nome e responda com prontidão: deixe as redes da autossuficiência, curvar-se à sabedoria do Crucificado, aprender o ritmo do Mestre que ensina, proclama e cura. Que a comunidade, iluminada pela Palavra, percorra também as “galileias” de hoje: periferias e centros, casas e ruas, escolas e hospitais, levando luz, reconciliação e cuidado. E que, ao escolher Cristo como único centro, possa dizer com verdade: “Não somos de Paulo, nem de Apolo, nem de Cefas; somos do Senhor.” Então, a unidade deixará de ser discurso e se tornará um sinal visível do Reino, para que muitos, atraídos pela luz, encontrem no seguimento de Jesus a alegria e a paz.

 

HOMILIA PARA O DIA 18 DE JANEIRO DE 2026 - 2º DOMINGO DO TEMPO COMUM

 

CONVOCADOS PARA  A COMUNHÃO

A saudação apostólica da Carta de São Paulo funda  a identidade e missão: chamados por Deus, santificados em Cristo Jesus, convocados à comunhão com todos os que invocam o Nome do Senhor. A liturgia confirma que a Igreja não nasce de profundezas humanas, mas do chamado eficaz que envia e consagra para servir. “Graça e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo” derramam-se como dom inaugural sobre a comunidade reunida: graça que cura a insuficiência, paz que reconcilia o disperso e sustenta a caminhada. A assembleia acolhe que a santidade, longe de ser rótulo de elite, é vocação comum: viver no mundo com coração cativado por Cristo, entregando-se ao Evangelho em gestos de fidelidade, mansidão e justiça. A saudação de Paulo torna-se hoje programa: receber para repartir, pertencer para testemunhar, ser povo da graça que faz nascer paz.

À luz do Evangelho de João, a Igreja contempla o Batista que aponta o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. A liturgia se detém no gesto mais simples e mais decisivo: o dedo que indica o Cristo, a palavra que diminui para que Ele cresça, a confissão que devolve a todos o centro verdadeiro. O Cordeiro não é símbolo frágil, mas a força mansa do amor que vence o pecado não esmagando, e sim carregando-o; sua missão é tirar o peso que curva a humanidade, abrir passagem onde a culpa fecha, reconciliar onde a violência divide. O testemunho do Batista é também epifania do Espírito: ele vê o Espírito descer e permanecer sobre Jesus, e por isso sabe que é Ele quem batiza no Espírito Santo. A assembleia aprende que a verdadeira evangelização nasce do olhar que retorna, do Espírito que permanece e da coragem de apontar Jesus sem retenções.

Entre a saudação que convoca à santidade e a indicação do Cordeiro que salva, a homilia chama a comunidade a renovar sua vocação batismal. Santificados em Cristo, os fiéis são enviados a ser “dedo que aponta” e “voz que indica”, para que muitos encontrem o Rosto que liberta: educar para a verdade num tempo de ruídos, praticar misericórdia onde impera a dureza, compartilhar pão e escuta com os que se sentem fora da mesa. A graça recebida se torna trilha de paz quando a Igreja recusa centralidades egoistas e, como João, se alegra em diminuição: ministérios exercidos como serviço, diferenças integradas na caridade, conflitos tratados com paciência e firmeza. O pecado do mundo não se tira com acusações, mas com a oferta do Cordeiro; por isso, a comunidade prefere caminhos de cura: reconciliação nas famílias, justiça no trabalho, cuidado dos pequenos, palavras que saram, presença junto aos feridos.

Por fim, a assembleia suplica viver sob a unção do Espírito que permanece: olhar limpo para reflexão o Cordeiro, coração humilde para apontá-lo, mãos abertas para repartir sua paz. Que a saudação de Paulo — graça e paz — desça sobre cada casa e reordene os começos deste tempo: agendas purificadas, prioridades ajustadas, vínculos fortalecidos. Que, como o Batista, a Igreja saiba dizer: “Eu vi e dou testemunho”, fazendo da liturgia fonte de missão e da missão prolongamento do culto. E que, nutrida pela Palavra e pelo Pão, ela saia deste Domingo com passo leve e firme, para que muitos, ao encontrarem o Cordeiro de Deus no testemunho dos santos de hoje, experimentem a alegria da santidade possível e a paz que só o Senhor pode dar.

 

HOMILIA PARA O DIA 11 DE JANEIRO DE 2026 - BATISMO DO SENHOR

 

JESUS O FILHO AMADO DO PAI!

A confissão de Pedro diante da casa de Cornélio é clara: Deus não faz distinção de pessoas, mas acolhe quem o respeita e pratica a justiça, em qualquer nação. A liturgia contempla a boa-nova da paz por meio de Jesus Cristo — Ele é o Senhor de todos —, cuja história começa na Galileia, após o batismo pregado por João. Ungido por Deus com o Espírito Santo e com poder, Ele passou fazendo o bem e curando todos os oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com Ele. A Igreja encontra nesse texto a raiz da sua missão: não fazer distinção, mas abrir-se a todos; não ideologia, mas unção; não triunfalismo, mas serviço que cura. A palavra do Apóstolo registra que o Evangelho é evento: um Deus próximo, um Cristo ungido, um povo enviado, para que a paz alcance casas, ruas e  ultrapasse fronteiras.

No Evangelho a comunidade contempla o Senhor que se aproxima do Jordão e, na fila dos pecadores, pede a João o batismo. O Justo se solidariza com os injustos; o Santo desce às águas dos que buscam conversão; a conformidade do Filho realiza “toda justiça”. Ao sair da água, os céus se abrem, o Espírito desce como pomba sobre Ele, e a voz do Pai declara: “Este é o meu Filho amado, em quem tenho a minha alegria.” A liturgia confirma aqui a epifania trinitária que inaugura publicamente a missão de Jesus e traça a fisionomia da Igreja: povo que vive a partir do céu aberto, caminha sob a unção do Espírito e escuta, acima de todas as vozes, a voz do Pai. O batismo do Senhor revela que a salvação nasce da humildade que desce para erguer, e da obediência que escuta para servir.

Entre a proclamação de Pedro e a manifestação no Jordão, a homilia aponta a vocação batismal da comunidade. Pelo batismo, cada fiel é mergulhado no Cristo e ungido pelo mesmo Espírito, para participar de sua missão de “passar fazendo o bem”: reconciliações que se iniciam, feridas que se tratam, injustiças que se enfrentam, pequenos que se levantam. A Igreja aprende a descer às águas das dores do povo sem medo de se molhar: presença junto aos pobres, proximidade aos enfermos, acolhida aos que chegam, escuta aos que não têm voz. Céus abertos significam esperança ativa; Espírito que significa docilidade que discerne; voz do Pai significa identidade recebida, não fabricada. Assim, a comunidade renova o compromisso de ser sinal de paz sem fronteiras e de justiça que não discrimina, deixando-se conduzir pela unção que cura e liberta.

Por fim, a assembleia suplica a graça de viver sob o selo da Palavra: “Tu és meu Filho amado.” Que cada batizado, lembrando sua pia batismal, reencontre a alegria da filiação e a coragem do serviço; que os ministérios se exercitem com humildade e ardor; que a missão atravesse as periferias geográficas e existenciais. Inspirada pelo testemunho de Pedro e guiada pelo gesto de Jesus, a Igreja pede céus continuamente abertos sobre a cidade: políticas que promovam vida e dignidade, relações pacificadas, trabalho justo, cuidado da criação. E que, nutrida pela Eucaristia, ela saia como Jesus da margem do Jordão para o cotidiano do mundo, levando a unção do Espírito, fazendo o bem, curando os oprimidos, para que muitos escutem, em seu próprio coração, a voz do Pai que chama à paz e à vida nova.

 

HOMILIA PARA O DIA 04 DE JANEIRO DE 2026 - FESTA DA EPIFANIA - REIS MAGOS

 

CAMINHAR COM OS MAGOS

POR ESTRADAS MAIS SEGURAS

Na primeira leitura Isaias descreve a cidade vestida de luz que se ergue ao amanhecer de Deus: “Levanta-te, resplandece, porque chegou a tua luz”. Ao mesmo que as trevas cobrem a terra e a escuridão dos povos, o Senhor desponta sobre os seus com glória que atrai os distantes. Filhos e filhas chegam de longe, corações se dilatam, caravanas atravessam os desertos trazendo ouro e incenso, proclamando os louvores do Senhor. Essa visão não é fuga poética, mas convocação: levantar-se é ato de fé, resplandecer é decisão cotidiana. A comunidade é chamada a começar o ano novo sob este imperativo pascal do Advento cumprido no Natal: erguer-se de quedas, reacender a esperança, abrir as portas para acolher e compartilhar. Onde a luz de Deus é acolhida, o medo perde o domínio e a coragem renasce como serviço, paciência e constância no bem.

No Evangelho a comunidade segue o caminho dos magos, buscadores de Deus que leem os sinais do céu e se põem a caminho, apesar das incertezas e dos Herodes que tentam manipular o sentido. A estrela não elimina a noite, mas orienta passos; Jerusalém oferece caminhos que esclarecem a direção; Belém, a pequena, guarda o Rei grande. Ao verem de novo a estrela, os magos experimentam “imensa alegria”; ao entrar em casa, prostram-se e ao abrirem seus cofres, oferecem o que tem de mais precioso. Na peregrinação ao encontro do Senhor aprendem na escola da coragem: discernem sem engenhosidade, caminham sem paralisar, adoram sem reservas, oferecem sem cálculo. E, avisados ​​em sonho, retornam por outro caminho: a fé que adora gera criatividade e prudência, livrando o ciclo da violência e do medo.

Entre a profecia da luz e a peregrinação dos magos, cada cristão é convidado a renovar a coragem para todos os dias do ano que começa. Coragem não é medo; é docilidade à estrela, fidelidade à Palavra e prontidão para mudar de rota quando Deus indicar. A comunidade é chamada a praticar a coragem mansa que sustenta as pequenas fidelidades: retomar a oração quando tudo distrair, recomeçar a reconciliação quando as feridas latejam, insistir na honestidade quando a tentação da vantagem se apresenta, cuidar dos frágeis quando o cansaço pesa. É coragem para buscar conselhos sábios, para dizer “não” ao que obscurece, para caminhar em comunhão e não à solitária maneira dos próprios caprichos. Como Isaías, a Igreja proclama: levante-se; como os magos, a Igreja se levanta e parte; e como Maria e José, acolhe e guarda o Mistério que dá sentido aos passos.

Por fim, a assembleia suplica que a estrela do Evangelho não se apague diante das contradições do tempo, e que a luz do Senhor cubra os dias do ano novo com discernimento e paz. Que cada família, como casa de Belém, ofereça espaço ao Menino: silêncio, ternura, partilha; e que cada fiel traga seu “ouro, incenso e mirra”: o melhor do trabalho, a oração que sobe, as dores entregues para serem redimidas. Inspirada pelos magos, a comunidade aprende a voltar por “outro caminho”: linguagem reconciliada, escolhas éticas, proximidade com os pobres, cuidado da criação, fraternidade no cotidiano. Assim, a profecia de Isaías se cumpre no hoje: povos atraídos pela luz, corações dilatados pela alegria, louvores que se elevam em gesto e verdade. E a Igreja, começando o ano, caminha com coragem esperançosa, guiada pela estrela do Cristo, até que todos vejam sua glória.

 

HOMILIA PARA O DIA 01 DE JANEIRO DE 2026 - ANO NOVO - DIA MUNDIAL DA PAZ

 

POR UMA PAZ DESARMADA E DESARMANTE

Acolhendo a Palavra neste primeiro dia do ano compreendemos a vitória que o próprio Deus coloca nos lábios de Aarão para proteger sobre o seu povo: “O Senhor lhe abençoe e guarda; o Senhor faça brilhar sua face sobre você e lhe seja favorável; o Senhor volte para o seu rosto e lhe conceda a paz.” Essa tríplice invocação de bênção é um gesto de aliança: Deus se inclina, ilumina, protege e comunica, paz plena que envolve corpo, alma e história. No início de um novo ano, a comunidade recebe o Nome do Senhor sobre ela como identidade e missão: ser povo abençoado e que abençoa, rosto visitado pela luz que reflete luz, coração guardado que se torna guarda para os vulneráveis. A vitória não é fórmula mágica, é compromisso: deixa-se gravar por Deus e passa a escrever, com escolhas concretas, a gramática da paz. Assim, a Igreja começa o tempo que se abre sob o sinal do rosto de Deus que brilha e pacifica.

À luz de Lucas a assembleia se aproxima de Belém com os pastores, encontra Maria e José e o Menino deitado na manjedoura, e aprende a adorar a paz feita gente. O Evangelho mostra a pressa da busca, a simplicidade do sinal, o estudo da Palavra que se cumpre, e, por fim, o oitavo dia em que o Menino é circuncidado e recebe o Nome de Jesus, “Deus salva”. Maria guarda e medita, os pastores glorificam e louvam: ambos ensinam que a paz nasce da contemplação e se espalha pelo anúncio. A circuncisão inscreve no corpo a pertença à Aliança; o Nome revela a missão do Filho: trazer salvação que reconcilia Deus e a humanidade, quebrando inimizades. A liturgia contempla que, com Jesus, a vitória anunciada no livro dos Números ganha rosto: a face que brilha é a do Emmanuel; o favor é sua misericórdia; a paz é sua presença que desarma a violência a partir do coração.

Entre a vitória sacerdotal e o Nome de Jesus, se conecta a mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz, ecoando o apelo a uma paz que não seja apenas ausência de guerra, mas trabalho paciente de justiça, cuidado da casa comum, cultura do encontro, regulação ética das tecnologias e tutela dos mais frágeis. A comunidade é chamada a traduzir a vitória obtida em responsabilidade social: promover o diálogo onde há polarização, tecer alianças intergeracionais, defender a dignidade de cada vida desde a concepção até o fim natural, acolher migrantes com prudência e caridade, educar para a verdade num tempo de desinformação. A luz do rosto de Deus convida a iluminar zonas de sombra: violência doméstica, racismo, fome, corrupção, tráfico de pessoas. O Nome de Jesus inspira a cura das linguagens: abençoar em vez de amaldiçoar, ouvir antes de responder, perdoar como quem foi perdoado. Assim, a comunidade torna-se sinal de uma paz aprendida no presépio e praticada nas ruas.

Por fim, a assembleia suplica: que a vitória de Números desça sobre famílias, governantes e povos, e que o Nome de Jesus seja refúgio e programa de vida. A liturgia pede a graça de uma espiritualidade de Belém: pressa para buscar o Senhor, fidelidade para guardar a Palavra, coragem para testemunhar a boa-nova. Inspirada pelo Papa, a Igreja assume passos concretos de paz: educação para a fraternidade, economia com rosto humano, cuidado dos pobres e da criação, presença reconciliadora nas feridas do bairro e do mundo. Que o Senhor levante sobre o seu povo o seu rosto e conceda paz que cura memórias, repara injustiças, pacifica relações, reconcilia com a própria história. E que, saindo deste Domingo, a comunidade caminhe como os pastores: glorificando e louvando a Deus por tudo o que pegou e viu, tornando-se, no ano que começa, vitória para muitos.

 

HOMILIA PARA O DIA 28 DE DEZEMBRO DE 2025 - FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA

 

QUE O SENHOR ABENÇOE E GUARDE

A leitura do livro do Eclesiástico declara que a sabedoria brota do temor do Senhor e se derrama na vida familiar como culto agradável a Deus. Recorda também que honrar pai e mãe é caminho de santidade, tesouro de vitórias, promessa de longevidade e alegria; não se trata de formalidade, mas de atitude que guarda a memória, cura feridas e sustenta o presente. A ternura com os mais velhos, especialmente quando fraquejam as forças, sobe a Deus como incenso, misericórdia para os filhos. A comunidade é chamada a acolher a humildade do discípulo: servir sem humilhar, obedecer sem servilismo, dialogar com respeito, cuidar com paciência. Onde a honra é viva, a casa se torna altar; onde a ingratidão governa, multiplicam-se as ruínas. A Igreja aprende desta leitura que a fé floresce primeiro no território das relações, e que o culto verdadeiro começa no lar.

O Salmo 127(128) faz a assembleia cantar a bem-aventurança dos que respeitam o Senhor e andam em seus caminhos. A liturgia põe nos lábios do povo a promessa de uma vida simples e plena: o trabalho que alimenta, o pão ganho com honestidade, a esposa como videira fecunda, os filhos como rebentos de oliveira ao redor da mesa. Não é um idealismo romântico, mas uma visão bíblica da casa que se deixa ordenar pela Palavra e se abre ao dom. A benção que desce de Sião alcança o cotidiano, visita as relações, fortalece a cidade, gera paz para Israel. A comunidade aprende a ver a mesa como lugar de aliança, o trabalho como participação na obra do Criador, a fecundidade como serviço à vida e à esperança. Quem teme o Senhor não escapa da luta, mas encontra sentido, justiça e alegria no meio dela.

Entre a sabedoria do Eclesiástico e o canto do Salmo, a Palavra convida a reerguer a vocação da família como santuário da vida e escola de comunhão. Honrar pai e mãe, hoje, significa também cuidar de suas vulnerabilidades, ouvir suas histórias, reconciliar memórias feridas, agradecer o legado recebido; e, para os pais, significa educar com firmeza e doçura, sem provocação, cultivando presença e exemplo. A mesa compartilhada torna-se exercício de justiça: repartir o pão, o tempo, a atenção, o perdão; proteger os pequenos, acolher quem chega, integrar os que estão à margem. A comunidade é enviada para sustentar casais em dificuldade, acompanhar idosos e doentes, fortalecer vínculos dilacerados pela pressão e pela economia do compromisso. Assim, a casa se torna a primeira paróquia, e a paróquia, casa ampla onde cada família encontra apoio, sentido e missão.

Por fim, a assembleia suplica a graça de viver a humildade que o Eclesiástico recomenda: “Quanto crescido você for, mais será capaz de compreender a humilhação, e encontrará graça diante do Senhor”. Que cada lar aprenda a linguagem do louvor e do pedido de perdão, e que o respeito ao Senhor ordene escolhas, palavras e afetos. A liturgia pede vitória sobre o trabalho de cada mão, serenidade para as provas, paciência para os processos, fecundidade para o amor. Que o Senhor, de Sião, abençoe a cidade e conceda ver a paz enquanto durarem os dias; que cada família, sustentada pela Eucaristia e pela Palavra, seja sinal da bem-aventurança cantada no Salmo e da sabedoria vivida em casa. E que, saindo deste Domingo, a Igreja leve ao mundo o perfume de lares que honram, servem e edificam, para que muitos encontrem no temor do Senhor a alegria de viver.

 

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

HOMILIA PARA O DIA 25 DE DEZEMBRO - MISSA DO DIA

 

ANUNCIO QUE CORRE PELAS MOTANHAS

O profeta Isaías faz um anúncio que corre pelos montes com passos belos: “Teu Deus reina!” A liturgia contempla o mensageiro que proclama a paz, traz a boa-nova e publica a salvação, enquanto as sentinelas levantam a voz e veem, olhos nos olhos, o retorno do Senhor a Sião. É o braço santo do Senhor desnudado diante das nações, para que toda a terra contemple a salvação do nosso Deus. A comunidade, reunida, deixa-se contagiar por essa alegria pascal que já irrompe no meio do exílio cotidiano: ruínas que cantam, feridas que se fecham, dispersos que se reencontram, porque o Senhor consola seu povo e resgata Jerusalém. É um evangelho que não se limita a palavras; ele faz caminho nascer, reconcilia memórias, estabelece justiça, e convida a Igreja a tornar-se também mensageira, com pés disponíveis e voz clara, para que muitos descubram que a realeza de Deus é proximidade que salva.

À luz da carta aos Hebreus a liturgia inteira se volta para o Filho, por meio de quem Deus falou definitivamente nestes últimos tempos. Após muitos fragmentos e sombras, resplandece a Palavra plena: o Filho é o resplendor da glória e a expressão exata do ser do Pai; por Ele o mundo foi criado e por Ele tudo subsiste. Ele fez a purificação dos pecados e enviou-se à direita da Majestade nas alturas, superior aos anjos como mais excelente é o nome que herdou. A assembleia reconhece que não está diante de um mensageiro qualquer, mas do próprio Verbo feito carne exaltado, aprende a ordenar toda missão a esta centralidade: adorar o Filho, escutar o Filho, seguir o Filho. “Adorem-no todos os anjos de Deus”: a Igreja se associa a este impulso cósmico e confessa que a soberania do Menino de Belém é a mesma do Senhor glorificado, manso no presépio, vencedor na cruz, vivo para sempre.

Entre a profecia de Isaías e o Filho revelado em Hebreus, a liturgia indica o coração da fé: Deus reina porque o Filho veio, falou, purificou e permanece. A comunidade é convidada a deixar-se evangelizar de novo, para que “Teu Deus reina” não seja slogan, mas sinal que reorienta agendas, afetos e escolhas. A paz anunciada pelos belos pés se concretiza quando o Nome do Filho governa a casa e a cidade: linguagem desarmada, reconciliação buscada, justiça praticada, pobres acolhidos, criação respeitada. O louvor que enche os lábios precisa encher as mãos; o Deus que consola o povo através do Servo pede uma Igreja serva, capaz de consolar e erguer. E enquanto o mundo oferece vozes dispersas, a assembleia aprende a escutar a Palavra única e definitiva, discernindo o que é secundário do que é essencial, para permanecer firme quando os ventos mudam.

Por fim, a assembleia suplica graça para viver como sentinela que vê e canta, e como adoradora que se curva diante do Filho. Que o Espírito ajuste o passo da Igreja ao ritmo do Evangelho, tornando belos seus pés sobre os montes do cotidiano: famílias, trabalhos, ruas, fronteiras. Que cada celebração reacenda a certeza: o braço do Senhor salva e reúne, e sua glória se deixa ver no rosto dos pequenos. E que, ao sair deste Domingo, a comunidade leve aos confins o anúncio que Hebreus confirma e Isaías proclama: em Jesus, o Filho, Deus falou e reina; por isso, alegrem-se as ruínas, ergam-se os abatidos, e toda a terra veja a salvação do nosso Deus.

 

HOMILIA PARA O DIA 24 DE DEZEMBRO - MISSA DA NOITE

 

HOJE NASCEU O SALVADOR

A liturgia da Palavra, nesta noite santa, nos leva a contemplar uma aurora que vence as sombras e ilumina os que caminhavam na escuridão. Ao mesmo tempo proclama que um Menino nos foi dado, sendo reconhecido como Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai Eterno, Príncipe da Paz. Não é o brilho das armas que inauguram este Reino, mas a força mansa da luz que dissipa o jugo, quebra a vara do opressor e multiplica a alegria como em tempo de colheita. A comunidade percebe que essa promessa não é memória distante, mas anúncio atual que reergue os cansados, consola os feridos e abre o futuro aos que perderam a esperança. É zelo do Senhor dos Exércitos que realiza tal maravilha; por isso, a Igreja se põe de pé para acolher a paz que não passa, a justiça que não se corrompe, a esperança que não decepciona.

No Evagelho de Lucas, a Palavra conduz a assembleia da grandiosidade dos decretos imperiais ao silêncio de Belém, onde Deus escolhe uma pequena porta da pobreza para entrar na história. Um registro do mundo inteiro contrasta com um recém-nascido envolto em faixas e deitado numa manjedoura: é ali que a glória se abaixa e o céu toca a terra. Os pastores, primeiros destinatários da notícia, representam os marginalizados que se tornam guardiões do mistério; e o coro dos anjos abre a liturgia do Natal: “Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens de sua benevolência”. A Igreja aprende que a glória de Deus é a proximidade que salva, e que a paz prometida se derrama onde o coração se rende ao Emanuel. O sinal é humilde, mas definitivo: Deus conosco, pobre entre os pobres, para enriquecer a todos com sua graça.

Entre a profecia da luz e o nascimento na noite, a homilia aponta a tessitura do Reino: governo de paz, conselho sábio, justiça para os pequenos, proximidade misericordiosa. A comunidade é chamada a deixar-se iluminar por essa luz que julga e cura, que denuncia as trevas e, ao mesmo tempo, acende caminhos. Receber o Menino é rever prioridades: dar lugar ao silêncio que escuta, à família que acolhe, à mesa que partilha, à cidade que protege os vulneráveis; é aceitar que a força de Deus se manifeste na fraqueza que ama. O título “Príncipe da Paz” se traduz em escolhas concretas: desarmar a linguagem, reconciliar memórias, cultivar honestidade, cuidar da criação, aproximar-se de quem sofre. A Igreja, ao celebrar, torna-se sinal: luz posta no candelabro, casa que abriga, ponte que reconcilia, voz que canta esperança no meio da noite.

Por fim, a assembleia se coloca com os pastores a caminho de Belém, para ver o que o Senhor fez e oferece ao Menino a obediência da fé. A liturgia suplica olhos limpos para considerar o sinal simples, mãos abertas para acolher e repartir, pés elevados para servir, lábios prontos para a proclamar: glória a Deus e paz na terra. Que cada casa se torne manjedoura, cada coração uma faixa de ternura, cada comunidade um coro que anuncia uma boa-nova. E que, sustentada pela Palavra e pelo Pão da Vida, a Igreja saia deste Domingo natalino portando a clareza de Isaías e a canção dos anjos, para que muitos, tocados pela luz, encontrem no Emanuel o descanso da esperança e a alegria que não se apaga.