segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

HOMILIA PARA O DIA 18 DE FEVEREIRO - QUARTA FEIRA DE CINZAS

 

Fé com sementes de amor!

À luz do profeta Joel, escutamos: “Convertem-se a mim de todo o coração, com jejum, lágrimas e luto” (Jl 2,12). Não é aparência, mas coração rasgado. Neste tempo favorável, a comunidade se reúne em humildade, pede perdão e se oferece como terra boa, onde a graça de Deus possa germinar compaixão e acolhida aos que não têm onde reclinar a cabeça.

Como em Joel, clamamos entre o pórtico e o altar: “Poupa, Senhor, o seu povo!” (Jl 2,17). Nos rostos cansados dos que vivem nas ruas, Deus nos visita e nos chama à conversão. A penitência que agrada ao Senhor não se limita a ritos: ela se torna pão partilhado, cobertor estendido, porta aberta, escuta atenta e política pública defendida. O jejum do egoísmo floresce em mesa preparada para quem tem fome de pão e de dignidade.

Em Cristo, ouvimos o clamor: “Deixem-se reconciliar com Deus” (2Cor 5,20). Reconciliar-se com Deus é reconciliar-se com o irmão. A Igreja, em missão, faz-se embaixadora de Cristo junto aos descartados, anunciando que hoje é “o tempo favorável”, hoje é “o dia da salvação” (2Cor 6,2). Não esperemos outra hora: a graça passa agora pelas calçadas, deita-se nos bancos da praça, chama pelo nome nas noites frias.

O Senhor que se fez pobre por nós, para nos enriquecer com sua pobreza, convoca-nos à conversão concreta: rever escolhas, partilhar bens, revisitar prioridades comunitárias. A penitência de nossas comunidades populares é simples e fecunda: mutirões de solidariedade, visitas, rodas de conversa, articulação com serviços públicos, pastoral de rua. Assim, nossa fé lança sementes de amor que brotam em moradia digna e pertencimento.

Escutemos Jesus no Evangelho: “Guardem-se de praticar a justiça na frente dos outros, para serem vistos” (Mt 6,1). Quando jejuarem, quando derem esmola, quando orarem, façam no segredo do coração. A penitência evangélica não busca aplauso: busca o Rosto do Pai. O Deus que vê o escondido reconhece, no gesto humilde, a morada onde deseja habitar.

A esmola que sobe como incenso é a caridade organizada. Não é moeda lançada por pena, mas compromisso fraterno. É transformar a paróquia em casa de portas abertas, criar redes com outras igrejas, movimentos e poder público; é promover acolhimento emergencial e lutar por políticas de habitação. O Pai, que vê no segredo, abençoa a justiça que nasce da oração e se derrama em serviço.

O jejum que Jesus pede é escola de liberdade. Jejuar para que alguém coma, renunciar para que outro tenha, simplificar para que muitos vivam melhor. Ao domar a pressa e a indiferença, descobrimos tempo para o encontro: um nome, uma história, uma mão dada. Nosso jejum rompe correntes e devolve dignidade aos que foram esquecidos.

A oração, feita na intimidade do coração, acende a lamparina da esperança. Diante do Pai, apresentamos a realidade dura das ruas e deixamos que sua Palavra nos converta. A liturgia nos modela: do altar, levamos a paz; da mesa eucarística, aprendemos a partir e repartir. Quem comunga o Pão torna-se pão partido para muitos.

“Nossa fé se faz sementes de amor.” Semente é pequena, mas sabe esperar. Semeemos presença, escuta, formação, compromisso social. Semeemos com lágrimas, reguemos com perseverança e colheremos com alegria: famílias reconstituídas, políticas de moradia, comunidades que acolhem, crianças protegidas, idosos respeitados. Onde a Igreja semeia amor, Deus faz crescer moradas de misericórdia.

Que o Senhor tenha compaixão de seu povo (Jl 2,18) e faça de nós sinais de sua ternura. Renovados pela penitência e pela conversão, sigamos Jesus que veio morar entre nós: aproximemo-nos dos que não têm casa, reconheçamos neles o próprio Cristo, e, como corpo vivo da Igreja, façamos de nossas comunidades um abrigo de fé, uma tenda de justiça e um lar de fraternidade. Hoje é o tempo favorável, hoje é o dia da salvação. Amém.

 

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