quarta-feira, 11 de março de 2026

HOMILIA PARA O DIA 22 DE MARÇO DE 2026 - 5º DOMINGO DA QUARESMA


DEUS, O SENHOR DA VIDA!

 

Imaginemos por um instante aquela cena que muitos de nós já vivemos ou testemunhamos: uma família reunida ao redor da mesa de jantar, rindo das histórias do dia, quando o telefone toca. É o hospital: "Seu pai sofreu um infarto grave. Venham rápido." O mundo desaba. Lágrimas, desespero, aquela pergunta que queima o peito: "Por quê, Senhor? Por que agora, quando tudo parecia bem?" A morte invade como um ladrão, sem aviso, deixando um vazio que nenhum remédio cura. Hoje, no coração da Quaresma, a liturgia nos grita com força: Deus é o Senhor da vida! Ele não nos livra das dores da finitude humana, mas as transforma em portas para a vida eterna, revelada em Jesus Cristo, que é a ressurreição e a vida.

 

Já percorremos mais da metade do caminho quaresmal. Estamos no 5º Domingo da Quaresma, e a Palavra de Deus nos coloca novamente diante de uma verdade essencial da fé: a morte, essa dor sem remédio imediato, ganha sentido à luz da vida definitiva que Jesus nos oferece. Como os exilados na Babilônia – aqueles ossos secos do vale, sem esperança, sem fôlego –, nós enfrentamos desânimo e frustrações que ecoam em nossas comunidades hoje. A primeira leitura nos lembra: Deus promete abrir sepulturas, fazer voltar o Espírito e nos colocar em nossa terra. Não é poesia vazia; é profecia que se cumpre em Cristo! No Salmo todos clamamos: "Das profundezas clamo a ti, Senhor", e Paulo, na segunda leitura assegura: o Espírito que ressuscitou Jesus habita em nós, vivificando nossos corpos mortais. Tudo converge para o Evangelho: a ressurreição de Lázaro, sinal supremo de que onde está Jesus, a morte vira passagem para a glória.

Vejamos o fio condutor das leituras. No Antigo Testamento, Ezequiel vê um vale de ossos secos – imagem do exílio babilônico, da morte espiritual e física do povo. É Deus recriando esperança onde só havia pó. Paulo aprofunda: "Se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós, aquele que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos dará também a vida aos vossos corpos mortais, por meio do seu Espírito que habita em vós" Teologicamente, isso aponta para a ressurreição final: todos os mortos ressuscitarão, os justos para a vida eterna, os ímpios para o juízo.

O Evangelho de João é o ponto alto. Lázaro, amigo íntimo de Jesus, adoece. As irmãs mandam dizer: "Senhor, eis que está enfermo aquele que amas" Jesus demora dois dias – por quê? Para que a morte seja real, o milagre inegável: Lázaro já cheira a decomposição após quatro dias no túmulo Marta sai ao encontro: "Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido" Jesus responde: "Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; todo aquele que vive e crê em mim jamais morrerá. Crês tu nisso?" Marta professa fé: "Sim, Senhor! [...] Tu és o Cristo, o Filho de Deus" Maria chora aos pés de Jesus, que se comove, perturba-se e chora. Diante do túmulo: "Tirai a pedra!"... "Lázaro, sai para fora!" O morto emerge, amortalhado. "Desatai-o e deixai-o ir".

Pense naquela família do telefone à mesa. O pai resiste à morte por dias, como Lázaro no túmulo. A esposa, como Marta, questiona: "Por quê?" Mas reza, une-se à comunidade em vigília. No funeral, alguém lê João 11: "Eu sou a ressurreição". Lágrimas fluem, mas surge paz: o Espírito sopra, recriando laços fraternos rompidos pela dor.

No cotidiano: divórcio que rompe fraternidade, luto por filho perdido, desemprego que enterra sonhos – Deus não abandona; Ele recria, como sopro nos ossos secos.

Ser amigo de Jesus, como Lázaro, não isenta das vicissitudes humanas. Ele amava aquela família, mas permitiu a morte – provação necessária para glória maior. Na Quaresma, nossas fragilidades (doença, solidão, rupturas familiares) são túmulos onde Jesus clama: "Sai para fora!" Não pare no choro – Jesus chorou! – mas creia: os que morrem encontram em Deus a plenitude da vida.

 

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