DEUS, O SENHOR DA VIDA!
Imaginemos por um instante aquela cena que muitos de nós já
vivemos ou testemunhamos: uma família reunida ao redor da mesa de jantar, rindo
das histórias do dia, quando o telefone toca. É o hospital: "Seu pai
sofreu um infarto grave. Venham rápido." O mundo desaba. Lágrimas,
desespero, aquela pergunta que queima o peito: "Por quê, Senhor? Por que
agora, quando tudo parecia bem?" A morte invade como um ladrão, sem aviso,
deixando um vazio que nenhum remédio cura. Hoje, no coração da
Quaresma, a liturgia nos grita com força: Deus é o Senhor da vida! Ele não nos livra das dores da finitude
humana, mas as transforma em portas para a vida eterna, revelada em Jesus
Cristo, que é a ressurreição e a vida.
Já
percorremos mais da metade do caminho quaresmal. Estamos no 5º Domingo da
Quaresma, e a Palavra de Deus nos coloca novamente diante de uma verdade
essencial da fé: a morte, essa dor sem remédio imediato, ganha sentido à luz da
vida definitiva que Jesus nos oferece. Como os exilados na Babilônia – aqueles
ossos secos do vale, sem esperança, sem fôlego –, nós enfrentamos desânimo e
frustrações que ecoam em nossas comunidades hoje. A primeira leitura nos
lembra: Deus promete abrir sepulturas, fazer voltar o Espírito e nos colocar em
nossa terra. Não é poesia vazia; é profecia que se cumpre em Cristo! No Salmo
todos clamamos: "Das profundezas clamo a ti, Senhor", e Paulo, na
segunda leitura assegura: o Espírito que ressuscitou Jesus habita em nós,
vivificando nossos corpos mortais. Tudo converge para o Evangelho: a
ressurreição de Lázaro, sinal supremo de que onde está Jesus, a
morte vira passagem para a glória.
Vejamos o
fio condutor das leituras. No Antigo Testamento, Ezequiel vê um vale de ossos
secos – imagem do exílio babilônico, da morte espiritual e física do povo. É
Deus recriando esperança onde só havia pó. Paulo aprofunda: "Se o Espírito
daquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós, aquele que
ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos dará também a vida aos vossos
corpos mortais, por meio do seu Espírito que habita em vós" Teologicamente,
isso aponta para a ressurreição final: todos os mortos ressuscitarão, os justos
para a vida eterna, os ímpios para o juízo.
O Evangelho de João é o ponto alto. Lázaro, amigo íntimo de
Jesus, adoece. As irmãs mandam dizer: "Senhor, eis que está enfermo aquele
que amas" Jesus demora dois dias – por quê? Para que a morte seja
real, o milagre inegável: Lázaro já cheira a decomposição após quatro dias no
túmulo Marta sai ao encontro: "Senhor, se estivesses aqui, meu irmão
não teria morrido" Jesus responde: "Eu sou a ressurreição e a vida. Quem
crê em mim, ainda que morra, viverá; todo aquele que vive e crê em mim jamais
morrerá. Crês tu nisso?" Marta professa fé:
"Sim, Senhor! [...] Tu és o Cristo, o Filho de Deus" Maria chora aos
pés de Jesus, que se comove, perturba-se e chora. Diante
do túmulo: "Tirai a pedra!"... "Lázaro, sai para fora!" O
morto emerge, amortalhado. "Desatai-o e deixai-o ir".
Pense
naquela família do telefone à mesa. O pai resiste à morte por dias, como Lázaro
no túmulo. A esposa, como Marta, questiona: "Por quê?" Mas reza,
une-se à comunidade em vigília. No funeral, alguém lê João 11: "Eu sou a
ressurreição". Lágrimas fluem, mas surge paz: o Espírito sopra, recriando
laços fraternos rompidos pela dor.
No
cotidiano: divórcio que rompe fraternidade, luto por filho perdido, desemprego
que enterra sonhos – Deus não abandona; Ele recria, como sopro nos ossos secos.
Ser amigo de Jesus, como Lázaro, não isenta das vicissitudes humanas. Ele amava aquela família, mas permitiu a morte – provação necessária para glória maior. Na Quaresma, nossas fragilidades (doença, solidão, rupturas familiares) são túmulos onde Jesus clama: "Sai para fora!" Não pare no choro – Jesus chorou! – mas creia: os que morrem encontram em Deus a plenitude da vida.
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