DEIXAR CRESCER A MISERICÓRDIA
Neste XVI Domingo do Tempo Comum – a liturgia nos faz contemplar a
misericórdia de Deus na maneira como Ele governa o tempo: paciente, sem pressa de destruir, mas também justa, sem permitir que
o mal tenha a última palavra. A Sabedoria recorda que Deus cuida de todos, e
que o coração humano não pode enganar-se com aparências: há quem “fale com
doçura”, mas planeje o mal por dentro. No Evangelho, Jesus apresenta o
Reino como uma obra do semeador: “o homem
semeou boa semente”; porém, “enquanto todos dormiam, veio o inimigo e
semeou ervas daninhas no meio do trigo”. Os servos, vendo o escândalo já
nascendo, querem arrancar as ervas; mas o Senhor responde: “Não… porque, ao arrancar as ervas, não
arrancaríeis junto com elas o trigo”. E conclui: “deixai crescer ambos até a colheita”. Assim, o tempo da mistura é também
o tempo da misericórdia: Deus não se deixa vencer pelo impulso de eliminar; Ele
espera até o desfecho, quando a colheita revelar a verdade.
A Sabedoria ilumina essa pedagogia
divina ao mostrar que o mal, quando se apresenta “com lábios doces”, não muda
seu desígnio. O inimigo age como quem promete proteção, mas a ruína chega; e,
então, “se agitará” e mostrará o que era. É como no cotidiano: pense numa
horta em que, pouco depois da semeadura, aparecem plantas daninhas. Se alguém
tentar arrancá-las de imediato, pode destruir também o que foi plantado com
esforço. Um agricultor prudente espera o crescimento para que o fruto fique
reconhecível; do mesmo modo, Deus permite que a história avance, porque sua
misericórdia não é ingenuidade: é espera com sabedoria até que a colheita se
torne clara.
Diante disso, a Igreja nos convida a
viver a paciência sem transformar a misericórdia em tolerância do mal: não é o nosso papel arrancar cedo demais, movidos por raiva, fofoca ou
“lógica de servos”. É, antes, acolher a misericórdia de Deus como critério para
o próprio coração: quando houver ervas ao redor — diferenças, fraquezas, erros
de outros, confusões na comunidade — praticar o bem, corrigir com caridade,
rezar sem desistir e confiar a separação final ao Senhor. Pois a misericórdia
divina é paciente “até a colheita”, e sua justiça, no fim, não abandona o
trigo.
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