segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

HOMILIA PARA O DIA 22 DE FEVEREIRO - SEGUNDO DOMINGO DA QUARESMA

 

QUARESMA:  TEMPO PARA CONTEMPLAR 

O SOPRO DE DEUS

1.   Irmãos e irmãs, iniciamos a Quaresma olhando o sopro de Deus que dá vida ao ser humano (Gn 2). Fomos criados para a comunhão, para a alegria que não passa. No jardim, Deus nos coloca como guardiões da criação e nos indica o caminho da vida.

2.   Mas a serpente sussurra: “você não precisa de ninguém, pode ser igual a Deus”. A tentação do egoísmo e da autossuficiência promete liberdade, mas rouba a confiança. Quando o coração se fecha, perdemos o sabor do jardim e ficamos nus diante das nossas fragilidades (Gn 3).

3.   A Palavra ensina: felicidade não é acumular, é acolher. Quem escuta o Senhor encontra direção; quem se guia só pelo próprio desejo cai no vazio das coisas efêmeras. A Quaresma é tempo de escolher de novo a fonte verdadeira.

4.   No deserto, Jesus enfrenta as tentações (Mt 4). Ele recusa transformar pedra em pão para si. O pão sem Palavra não sustenta. Primeiro Deus, depois o resto. “Nem só de pão vive o homem”: é o jejum que educa o desejo e devolve liberdade.

5.   Jesus também rejeita o espetáculo do Templo. Fé não é show, é confiança filial. Não se brinca com Deus. A oração quaresmal cura a ansiedade de provar valor e nos reconcilia com nossa pequenez amada.

6.   Por fim, Jesus recusa o poder fácil. Não se dobra ao ídolo do sucesso. Adorar é servir somente a Deus. A esmola, feita com discrição, quebra a força da ganância e abre espaço para a partilha que salva.

7.   Essas opções de Jesus iluminam nossas casas. A vida familiar acontece em lugares apertados, ocupações, áreas rurais, favelas, apartamentos alugados. Onde moramos molda o diálogo, a paz das crianças, a intimidade do casal, a oração da “Igreja doméstica”.

8.   Pastoral Familiar não pode ser indiferente: lutar por moradia digna é obra de misericórdia. Uma porta que fecha com segurança, um quarto silencioso, uma mesa com pão e escuta, tudo isso é evangelho encarnado. Política pública justa e solidariedade comunitária são expressão de fé.

9.   Na Quaresma, convido: organizar um cantinho de oração em casa; fazer uma refeição semanal mais simples para partilhar com quem precisa; reservar tempo de escuta em família; visitar uma família vizinha em situação precária; rezar com a Palavra do dia.

10.                    Entre o jardim e o deserto, escolhemos com Jesus. Se abraçarmos o projeto de Deus, conheceremos vida plena; se servirmos aos ídolos, colheremos vazio. Que o Espírito nos conduza: jejum que liberta, oração que confia, caridade que constrói lares e comunidades onde Deus habita. Amém.

 

HOMILIA PARA O DIA 18 DE FEVEREIRO - QUARTA FEIRA DE CINZAS

 

Fé com sementes de amor!

À luz do profeta Joel, escutamos: “Convertem-se a mim de todo o coração, com jejum, lágrimas e luto” (Jl 2,12). Não é aparência, mas coração rasgado. Neste tempo favorável, a comunidade se reúne em humildade, pede perdão e se oferece como terra boa, onde a graça de Deus possa germinar compaixão e acolhida aos que não têm onde reclinar a cabeça.

Como em Joel, clamamos entre o pórtico e o altar: “Poupa, Senhor, o seu povo!” (Jl 2,17). Nos rostos cansados dos que vivem nas ruas, Deus nos visita e nos chama à conversão. A penitência que agrada ao Senhor não se limita a ritos: ela se torna pão partilhado, cobertor estendido, porta aberta, escuta atenta e política pública defendida. O jejum do egoísmo floresce em mesa preparada para quem tem fome de pão e de dignidade.

Em Cristo, ouvimos o clamor: “Deixem-se reconciliar com Deus” (2Cor 5,20). Reconciliar-se com Deus é reconciliar-se com o irmão. A Igreja, em missão, faz-se embaixadora de Cristo junto aos descartados, anunciando que hoje é “o tempo favorável”, hoje é “o dia da salvação” (2Cor 6,2). Não esperemos outra hora: a graça passa agora pelas calçadas, deita-se nos bancos da praça, chama pelo nome nas noites frias.

O Senhor que se fez pobre por nós, para nos enriquecer com sua pobreza, convoca-nos à conversão concreta: rever escolhas, partilhar bens, revisitar prioridades comunitárias. A penitência de nossas comunidades populares é simples e fecunda: mutirões de solidariedade, visitas, rodas de conversa, articulação com serviços públicos, pastoral de rua. Assim, nossa fé lança sementes de amor que brotam em moradia digna e pertencimento.

Escutemos Jesus no Evangelho: “Guardem-se de praticar a justiça na frente dos outros, para serem vistos” (Mt 6,1). Quando jejuarem, quando derem esmola, quando orarem, façam no segredo do coração. A penitência evangélica não busca aplauso: busca o Rosto do Pai. O Deus que vê o escondido reconhece, no gesto humilde, a morada onde deseja habitar.

A esmola que sobe como incenso é a caridade organizada. Não é moeda lançada por pena, mas compromisso fraterno. É transformar a paróquia em casa de portas abertas, criar redes com outras igrejas, movimentos e poder público; é promover acolhimento emergencial e lutar por políticas de habitação. O Pai, que vê no segredo, abençoa a justiça que nasce da oração e se derrama em serviço.

O jejum que Jesus pede é escola de liberdade. Jejuar para que alguém coma, renunciar para que outro tenha, simplificar para que muitos vivam melhor. Ao domar a pressa e a indiferença, descobrimos tempo para o encontro: um nome, uma história, uma mão dada. Nosso jejum rompe correntes e devolve dignidade aos que foram esquecidos.

A oração, feita na intimidade do coração, acende a lamparina da esperança. Diante do Pai, apresentamos a realidade dura das ruas e deixamos que sua Palavra nos converta. A liturgia nos modela: do altar, levamos a paz; da mesa eucarística, aprendemos a partir e repartir. Quem comunga o Pão torna-se pão partido para muitos.

“Nossa fé se faz sementes de amor.” Semente é pequena, mas sabe esperar. Semeemos presença, escuta, formação, compromisso social. Semeemos com lágrimas, reguemos com perseverança e colheremos com alegria: famílias reconstituídas, políticas de moradia, comunidades que acolhem, crianças protegidas, idosos respeitados. Onde a Igreja semeia amor, Deus faz crescer moradas de misericórdia.

Que o Senhor tenha compaixão de seu povo (Jl 2,18) e faça de nós sinais de sua ternura. Renovados pela penitência e pela conversão, sigamos Jesus que veio morar entre nós: aproximemo-nos dos que não têm casa, reconheçamos neles o próprio Cristo, e, como corpo vivo da Igreja, façamos de nossas comunidades um abrigo de fé, uma tenda de justiça e um lar de fraternidade. Hoje é o tempo favorável, hoje é o dia da salvação. Amém.

 

HOMILIA PARA O DIA 15 DE FEVEREIRO DE 2025

 

SEGUIR O MESTRE COM ENTUSIASMO

Irmãos e irmãs, hoje a Palavra nos apresenta um caminho de vida. Deus coloca diante de nós a escolha: seguir seus caminhos, que levam à alegria e à paz, ou seguir só a nossa cabeça, que tantas vezes termina em dor e confusão. Ele não nos força; Ele convida. A decisão é nossa.

O livro do Eclesiástico lembra: Deus nos deu liberdade. Podemos optar pela vida ou pela morte, pelo bem ou pelo mal. Seus mandamentos não são peso, são placas de sinalização na estrada da vida. Quem segue esses sinais anda seguro, mesmo nas curvas e nas tempestades.

Paulo nos fala de um segredo bonito: o plano de Deus, preparado desde sempre para quem O ama. É a “sabedoria de Deus”, que o mundo não entende com livros e grandes discursos. Essa sabedoria se reconhece com o coração, no amor que Deus derramou por nós em Jesus.

Esse mistério ficou claro na cruz. Ali, Jesus não só falou de amor: Ele amou até o fim. Na cruz, vemos “ao vivo e a cores” que Deus é por nós, não contra nós. Quem olha para a cruz encontra força para recomeçar e descobre o caminho da salvação.

Salvação, aqui, não é fuga da vida. É viver plenamente: ser gente de paz, de verdade, de partilha, de comunhão. É deixar Deus curar nossas feridas e transformar nossas relações. É aprender a amar como Jesus amou.

O Evangelho nos chama a ir além do “mínimo”. Não basta cumprir a letra fria da Lei. Jesus aponta para o coração: quem alimenta raiva e desprezo já começou a romper a vida do irmão; quem reduz o outro a objeto já feriu a dignidade que Deus deu; quem fala sem verdade estraga a confiança que sustenta a comunidade.

Por isso, Jesus nos convida a uma justiça maior: reconciliar antes de oferecer, respeitar antes de desejar, falar simples e verdadeiro – “sim, sim; não, não”. É o compromisso inteiro, não metade de coração. É fé que se nota no trato diário, em casa, no trabalho, na rua.

Para escolher a vida, precisamos escutar a Palavra e praticá-la. Os mandamentos são caminho seguro: não matar, não trair, não mentir, não usar o nome de Deus à toa. Mas Jesus mostra o espírito por trás da letra: cuidar do irmão, honrar o casamento, cultivar a verdade, rever atitudes que ferem.

Deus nos preparou algo grande “para aqueles que O amam”. Essa promessa começa já aqui, quando a comunidade vive a caridade: perdoa, partilha, acolhe, defende os pequenos. O Espírito nos dá força para dar passos concretos, mesmo quando custa.

Hoje, diante do altar, renovemos nossa escolha: queremos a vida, queremos a sabedoria de Deus, queremos seguir Jesus com entusiasmo. Que nosso “sim” seja inteiro, nosso olhar limpo, nossa palavra verdadeira e nosso amor generoso. Assim, caminharemos firmes, guiados pela cruz que ilumina e salva. Amém.