segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

HOMILIA PARA O DIA 01 DE MARÇO DE 2026 - 2º DOMINGO DA QUARESMA

 

QUARESMA, TEMPO DE ESCUTAR O FILHO AMADO

Irmãos e irmãs, hoje a Palavra de Deus nos conduz ao monte da Transfiguração (Mt 17,1-9) e ao coração do testemunho. (2Tm 1,8b-10). Ali Deus revela quem é Jesus e quem devemos ser nós: discípulos que escutam o Filho amado e servidores que anunciam calorosamente a salvação. Entre o brilho do Tabor e as sombras de Jerusalém, aprendendo que a fé não nos afasta da cruz, mas nos faz atravessá-la rumo à vida nova.

No Tabor, os discípulos veem por instantes a glória que habita  em Jesus. É como se Deus abrisse uma janela do céu para fortalecer os corações cansados. A voz do Pai ressoa: "Este é o meu Filho muito amado. Escutai-O!". A fé começa pela escuta. Escutar Jesus é acolher sua pessoa, seu Evangelho e seu caminho — não apenas suas consolações, mas também seus critérios.

A grande tentação é permanecer nas tendas do conforto espiritual, congelar a experiência do monte e evitar a descida para a vida real. Mas Jesus toca nos discípulos e os faz levantar. Ele nos lembra que o encontro com sua glória não nos aliena do mundo: capacita-nos para servir no vale onde estão as dores, as injustiças e as urgências humanas.

Paulo, escrevendo a Timóteo, convoca a não nos envergonharmos do testemunho e a participar dos sofrimentos pelo Evangelho, apoiados na graça. O anúncio da salvação não é um adereço de fé; é sua pulsação. Pode custar: riscos, medos, oposição. Mas o Deus que nos chama é o mesmo que nos fortalece; Ele nos salvou e nos deu uma vocação santa. Não caminhamos sozinhos.

Entre o Tabor e Jerusalém, amadureceu a coragem cristã: confie em Jesus e ouse segui-lo, mesmo quando a estrada passa pela cruz. A Transfiguração nos garante que a última palavra não é a morte, mas a Páscoa. Por isso, o discípulo pode descer do monte com esperança ativa: não fugimos do mundo; transfiguramos o mundo com a luz de Cristo.

E o que o Senhor nos pede, hoje, de modo concreto? Escutando o Filho, registramos no rosto dos pobres o lugar de sua presença. Não há verdadeira contemplação que não se torne compaixão. A Palavra nos chama a uma responsabilidade social inadiável: colaborar para uma sociedade onde todos tenham um teto, pão e dignidade. A fé que vê a glória no Tabor deve ver a chaga do irmão ao lado.

Ter um lar não é luxo; é condição básica para a vida florescer. Como Igreja e como cidadãos, somos chamados a unir políticas públicas oração e ação: apoiar políticas de habitação digna, promover mutirões e parcerias solidárias, abrir espaços eclesiais para acolhimento emergencial, promover formação profissional e apoio jurídico para famílias em vulnerabilidade. Caridade que não esquece a justiça; justiça que se alimenta da caridade.

Talvez isso nos custe: incompreensões, cansaço, prioridades difíceis. Mas o Evangelho pede telhados e mesas compartilhadas, não apenas discursos. O anúncio “de cima dos telhados” de que fala a segunda leitura pode começar pelo telhado que ajudamos alguém a ter. A Boa Notícia ganha complemento quando cria boas notícias na vida concreta das pessoas.

Voltemos então do monte com os ouvidos abertos: “Escutai-O”. Ele nos diz: “Levantai-vos, não tenhais medo”. Que cada comunidade se pergunte: quem, na nossa cidade, dorme ao relento? O que podemos fazer esta semana, juntos, para mudar essa história? Pequenos passos, perseverantes, transfiguram realidades.

Que a Eucaristia nos fortaleça para descer com Jesus e, com Ele, erguer irmãos. O Pai nos mostra o Filho amado; o Filho nos mostra os pobres amados do Pai; e o Espírito nos dá coragem para servir. Seguiremos o caminho de Jerusalém com confiança: da cruz brotará a vida — e, pela nossa fé em ação, muitos encontrarão abrigo, esperança e um novo começo. Amém.

 

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