sexta-feira, 28 de novembro de 2025

HOMILIA PARA O DIA 07 DE DEZEMBRO DE 2025 - 2º DOMINGO DO DVENTO

 

O SENHOR É JUSTO JUIZ

No horizonte traçado por Isaías 11,1-10,  contemplamos o broto que desponta do tronco de Jessé, sinal de uma esperança que vence a paisagem estéril do exílio e da desilusão. A liturgia aponta para Aquele sobre quem está relacionado ao Espírito do Senhor: espírito de sabedoria e discernimento, de conselho e fortaleza, de ciência e temor do Senhor. Não se trata de um poder que impõe, mas de uma presença que pacifica, reordena, reconcilia. A justiça do Ungido nasce da proximidade com os pobres e do juízo reto que não se deixa comprar pelas aparências; seus lábios ferem a mentira e sua cintura está cingida de fidelidade. Diante desse retrato messiânico, o povo de Deus é chamado a deixar-se regenerar por essa seiva nova, aceitando que Cristo seja a raiz e a régua de todos os critérios. Onde Ele reina, o lobo habita com o cordeiro e nasce uma ética de cuidado que desfaz rivalidades; a paz não é utopia ingênua, mas fruto do conhecimento do Senhor que enche a terra como as águas cobrem o mar.

À luz de Mateus a voz austera de João Batista corta a barreira das obrigações e convoca a conversão. No deserto, onde cessam os ruídos e caem as máscaras, ele prepara um povo para o encontro com o Mais Forte, Aquele que batiza no Espírito Santo e no fogo. A liturgia recorda que não basta a linhagem nem os títulos religiosos: Deus pode suscitar filhos de Abraão das pedras, e o machado já está posto à raiz das árvores. A chamada é concreta: produzir frutos dignos de conversão, deixar a fé ganhar corpo em escolhas, relações e prioridades. A comunidade dominical é convidada a discernir: que frutos oferecem ao Senhor? O Evangelho não negocia com a duplicidade; o trigo e a palha serão distinguidos pelo Crivo do Messias, e o fogo que consome a palha é o mesmo ardor que purifica e acende a caridade nos corações disponíveis.

Entre a promessa de Isaías e a urgência de João, a liturgia faz ver que a conversão não é um moralismo pesado, mas adesão ao Rei manso e justo, cujo Espírito recria a humanidade por dentro. Converter-se é mudar o ponto de apoio: sair do centro para que o Broto seja a raiz; substituir a lógica do poder pela lógica do serviço; trocar o medo pela confiança em Deus que julga para salvar e corrigir para curar. A comunidade, ao ouvir hoje, é chamada de práticas que tornam visíveis o Reino da paz: justiça nas relações de trabalho, honestidade nos negócios, reverência pela vida frágil, reconciliação nas famílias, cuidado com a casa comum. O “temor do Senhor” cantado por Isaías não paralisa, orienta; enraíza a sabedoria que não se ilude com as aparências e se empenha pelos últimos. Onde o Messias governa, a violência perde a razão, a palavra se torna veraz, e as diferenças deixam de ser ameaça para voltar a ser encontro.

Por fim, somos convidados a acolher o Batizador que vem atrás de João, deixando-se tocar pelo Espírito que desce e pelo fogo que purifica. O Advento, tempo de espera ativa, pede passos visíveis: confessionário procurado com humildade, reconciliações assumidas com coragem, generosidade que partilha, oração que reabre a escuta. A comunidade pode receber o cinto da justiça e da fidelidade, para atravessar estes dias com sobriedade e esperança. O Mais Forte já está presente, e a pá está na mão: não para aterrorizar, mas para separar em nós o que é trigo do que é palha, para que nada se perca do que nasceu de Deus. Que, alimentada pela Palavra e antecipada na Eucaristia, a Igreja saia do deserto como povo preparado, trazendo no rosto a paz do Reino e nas mãos os frutos que o Senhor merece.

 

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

HOMILIA PARA O DIA 30 DE NOVEMBRO - 1º DOMINGO DO ADVENTO

DISCERNIR EM ORAÇÃO

Amados irmãos e irmãs, acolhendo o tempo do Advento, deixemo-nos interpelar pela exortação do Apóstolo: “Já é hora de despertardes do sono, porque a nossa salvação está agora mais perto do que quando abraçamos a fé” (Rm 13,11). A noite vai adiantada, o dia vem chegando; por isso, despojemo-nos das obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz, caminhamos com dignidade, como convém aos filhos do Dia. Neste santo itinerário, a Igreja nos registra que não avançamos sozinhos: somos povo em marcha, peregrinos do mesmo Senhor, sustentados pela Palavra e pelo pão do altar. A vigilância que São Paulo nos propõe não é tensão estéril, mas disciplina amorosa que nos congrega, purificando afetos, ordenando desejos e dispondo o coração para a vinda d'Aquele que é a Luz verdadeira.

No Evangelho, o Senhor nos alerta: “Como foi nos dias de Noé, assim aconteceu na vinda do Filho do Homem” (Mt 24,37). Enquanto muitos viviam distraídos, comendo e bebendo, alheios ao tempo favorável da graça, o dilúvio sobreveio. Assim também agora: a indiferença espiritual ameaça dispersar os rebanhos, enfraquecer os laços e destruir a esperança. Por isso, vigiai! A vigilância evangélica não é medo, mas amor atento, que detecta os sinais discretos da presença de Deus no cotidiano. Caminhar juntos no Advento é aprender a ouvir em comum a voz do Pastor, discernindo, em comunidade orante, o compasso da misericórdia que nos convoca à conversão e à esperança, para que nenhum se perca na distração que isola, e todos encontremos refúgio na arca da Igreja.

“Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo” (Rm 13,14a): eis a veste nupcial para o encontro que se aproxima. Revestir-se de Cristo é assumir seus sentimentos, suas atitudes e seu modo de amar, deixando para trás a roupa gasta das rivalidades, das invejas e da complacência com o pecado. É no “nós” eclesial que essa túnica se tece: na caridade que se faz serviço, na paciência que sustenta o fraco, na correção fraterna que cura, na partilha que multiplica a esperança. Quando a comunidade se reveste do Senhor, a noite perde força, e o clarão da aurora visita nossas casas, reacendendo o ardor da fé, a sobriedade dos costumes e a alegria de esperar. O Advento, então, torna-se escola de santidade comum: juntos aprendendo a vigiar, juntos aprendendo a amar.

Enfim, “ficai preparado, porque o Filho do Homem virá na hora em que menos pensais” (Mt 24,44). Preparar-se é ordenar a vida ao Reino: acender a lâmpada da oração, aquecer o azeite da caridade, abrir as portas da reconciliação. É deixar que o Senhor nos encontre com os pés no caminho e mãos no serviço, coração e olhos na promessa. Caminhamos, pois, como Igreja sinodal, passo a passo, sustentando-nos mutuamente, para que a Vinda não nos surpreenda dispersos, mas congregados ao redor d'Aquele que vem. Que este Advento seja para nós tempo de despertar, de vigília e de comunhão, e que, sob o manto da Mãe da Esperança, esperamos apressar a aurora do Cristo, Sol nascente que nos visita. Amém.

 


quinta-feira, 20 de novembro de 2025

HOMILIA PARA O DIA 23 DE NOVEMBRO - SOLENIDADE DE CRISTO REI - FESTA DE SANTA CECÍLIA

 

JESUS, REI DOS REIS

No alto da cruz, enquanto o povo olhava e os chefes zombavam, Jesus permanente Rei: não por coroas de ouro, mas pela coroa de espinhos; não por tronos de marfim, mas pelo lenho da cruz. “Salvou os outros; salve a si mesmo”, diziam, sem perceber que o verdadeiro poder é amar até o fim. No madeiro, o Cristo abre o Reino ao bom ladrão: “Hoje estarás comigo no Paraíso”. Ali se revela a vontade de Deus Pai: misericórdia que perdoa, soberania que se entrega, autoridade que se faz serviço.

Assim também Santa Cecília, jovem romana, escolheu risos e escárnios porque cantava louvores no coração ao Senhor. Não lhe faltaram zombarias nem violências; Procuravam abafar sua fé como se apagam brasas em banho ardente. Mas a melodia que ela elevou a Deus não se calou: transformou-se em testemunho que atravessa séculos, coroada não de aplausos humanos, mas da palma dos mártires. Em Cecília, a Igreja enxerga regularmente um reflexo do Rei escarnecido: firmeza mansa, amor jubiloso, fidelidade que não negocia  esperança.

Unidos à cruz de Cristo e ao cântico de Cecília, aprendendo que a verdadeira música do Reino nasce quando a caridade vence o medo. O mundo pode ridicularizar quem reza, quem perdoa, quem serve os pequenos; mas é nesse humilde compasso que Deus entoa sua vitória. Onde há zombaria, respondemos com vitória; onde há dureza, com mansidão; onde há trevas, com a luz da inspiração. O Rei triunfa quando seus discípulos permanecerem de pé, com o coração afinado pela Palavra e pelos sacramentos.

Por isso, no século XXI, os devotos de Santa Cecília assumem este compromisso: cantar a fé com a vida. Que nossas casas e comunidades sejam repletos de misericórdia; que nossas redes e ruas ressoem respeito, justiça e cuidado com os pobres; que o domingo nos encontre aos pés do Rei, na Eucaristia, e a semana nos veja periodicamente com alegria. Diante da zombaria, não calar; diante da violência, não responder com igual medida; diante da indiferença, perseverar no louvor. “Jesus, lembra-te de nós”: que este clamor faça de cada pessoa um pequeno instrumento nas mãos do Rei do Universo. Amém.

 

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

HOMILIAS PARA O DIA 16 DE NOVEMBRO DE 2025

SÓ DEUS É NOSSA ESPERANÇA

 

Irmãos e irmãs, reunidos na escuta da Palavra, contemplamos hoje o chamado firme e compassivo do Senhor. Paulo exorta a comunidade a não viver na ociosidade, mas a trabalhar com dignidade, para não ser peso aos outros e para ter o que partilhar. Não se trata apenas de ganhar o sustento, mas de cultivar uma vida coerente, responsável e fraterna, onde cada gesto cotidiano se torna louvor a Deus. A fé que professamos no altar deve se traduzir em compromisso concreto, em mãos que constroem, em corações que consolam, em passos que se apressam para o bem. É assim que a Igreja se torna casa de comunhão: quando ninguém cruza os braços diante da necessidade do irmão.

No Evangelho Jesus nos alerta para não colocar nossa confiança nas obras grandiosas deste mundo, por mais belas que pareçam. Templos, estruturas, seguranças humanas: tudo isso passa. O que permanece é a fidelidade do discípulo, sustentada pela graça, mesmo em meio a provações, incompreensões e lutas. “É na vossa perseverança que salvareis as vossas almas”, diz o Senhor. Perseverar não é endurecer o coração, mas mantê-lo firme no amor; não é fugir dos desafios, mas testemunhar a esperança quando tudo parece ruir. Diante das turbulências do tempo presente, a comunidade cristã é chamada a ser sinal de confiança serena: vigilante, orante, solidária.

Essa Palavra encontra eco luminoso na mensagem do Papa para o Dia Mundial dos Pobres. O Sucessor de Pedro recorda que os pobres não são números nem problemas a resolver, mas rostos a acolher, nomes a respeitar, histórias a amar. A ociosidade denunciada por Paulo contrasta com o empenho caridoso que o Papa nos pede: trabalhar não apenas por nós, mas com e pelos pobres; edificar não templos de pedra, mas casas de misericórdia; investir não em prestígio, mas em proximidade. A verdadeira segurança não está no acúmulo, mas na partilha; não no brilho das aparências, mas na luz humilde do serviço. Onde a caridade é operosa, ali a Igreja reflete o rosto de Cristo.

Supliquemos, portanto, a graça da perseverança e do labor generoso. Que cada família descubra no cotidiano a santidade simples do dever bem cumprido; que cada comunidade abra espaço para a amizade social, onde os últimos sejam os primeiros a serem cuidados; que os pobres encontrem em nós irmãos, não benfeitores distantes; e que, nas horas de prova, o Espírito nos dê palavras e gestos de esperança. Assim, trabalhando com as mãos e guardando o coração em Deus, construiremos um altar vivo na cidade, onde o Evangelho se faz pão repartido, e a vida, louvor. Amém.

HOMILIA PARA O DIA 09 DE NOVEMBRO DE 2025 - BASÍLICA DO LATRÃO

 

SOMOS TEMPLO E MORADA DE DEUS

Irmãos e irmãs amados, a Palavra hoje nos recorda que somos cooperadores de Deus, e que Ele mesmo lança o fundamento sobre o qual caminhamos, que é Cristo, pedra firme e segura, onde nosso passo cansado encontra direção e descanso, mesmo quando os ventos do mundo querem nos dispersar e confundir. São Paulo nos diz que não há outro alicerce além de Jesus, e isso significa que toda obra verdadeira na nossa vida nasce do amor de Deus e volta para Ele como oferta mansa e humilde, que alegra o coração e pacifica a casa interior. Quando aceitamos esse fundamento, nossas escolhas ganham luz, nossas dores encontram sentido, e nossas alegrias se tornam semente de esperança para os que caminham ao nosso lado, como quem partilha pão e água num deserto longo. Não construímos sozinhos, porque somos lavoura e edifício de Deus, e Ele, como bom mestre de obra, cuida das medidas do coração, aparando os excessos, firmando as colunas da fé, e abrindo janelas por onde entra o sopro do Espírito. Assim, não temamos os dias de prova, porque o Senhor conhece cada tijolo da nossa história e faz de nossa fraqueza um lugar onde sua força se revela, para que ninguém se glorie senão na graça.

O Evangelho nos mostra Jesus entrando no Templo, e, ao ver a casa do Pai transformada em mercado, acende-se nele o zelo que purifica, ordena e devolve o lugar ao seu verdadeiro sentido, que é ser morada de encontro, silêncio e louvor. A mesa da barganha não combina com a mesa da aliança, e o comércio do coração não convive com a gratuidade da misericórdia, porque o amor não se vende, o perdão não se pesa, e a presença de Deus não se negocia como moeda de interesse. Quando o Senhor derruba as bancas e solta as amarras, Ele não destrói a fé, mas a liberta das correntes que a impedem de respirar, de cantar e de servir com mãos limpas, como fonte que volta a jorrar água viva. Ele anuncia um Templo novo, erguido em três dias, falando do seu Corpo, que seria entregue por nós e ressuscitado para sempre, para que todo coração crente encontrasse abrigo seguro na Páscoa que não passa. Nesse gesto forte e terno, aprendemos que a verdadeira adoração nasce do interior, onde Deus quer habitar, e que toda reforma exterior só tem sentido quando acompanha a conversão do íntimo, onde Ele nos visita com paz.

Pelo batismo, irmãos, o Senhor nos fez templos do Espírito Santo, e isso quer dizer que em cada pessoa batizada há um altar onde a graça acende uma chama mansa, convidando à oração simples, ao perdão sincero e à caridade que não faz barulho, mas aquece a vida. Ser templo é cuidar da casa interior com respeito, como quem varre o chão da alma, tira o pó das mágoas, e abre as portas para que entre a luz, porque Deus gosta de morar em lugar arejado de confiança e esperança. É também vigiar contra as pequenas feiras que às vezes se levantam em nós, quando trocamos a fidelidade por vantagens, a verdade por conveniências, e o tempo de Deus por pressa, deixando que bancas estranhas ocupem o pátio sagrado do coração. O batismo nos dá a dignidade de filhos e a força de caminhar juntos, e a Igreja, como grande casa de família, sustenta nossos passos com a Palavra e a Eucaristia, para que não esqueçamos quem somos e para quem fomos feitos. Se somos templo, então nossos lábios sejam porta de bênção, nossas mãos sejam colunas de serviço, e nossos olhos, janelas por onde os outros possam ver um pouco do céu.

Por isso, peçamos hoje que Jesus, com seu zelo manso e decidido, visite nossa interioridade e derrube o que não é de Deus, para que o amor ocupe o centro e a paz faça morada, como brisa que consola e fortalece. Que Ele cure as rachaduras da nossa fé, una os tijolos quebrados da esperança, e unte com óleo novo as portas cansadas do coração, para que sejamos povo de luz no meio das sombras. Que cada família redescubra seu lar como pequeno santuário, onde a mesa é altar de partilha, a palavra é oração e o abraço é sacramento de consolo, tornando os dias mais simples e cheios de sentido. Caminhemos com coragem, porque o fundamento é Cristo, e quem constrói sobre Ele não se perde nas tempestades, nem desiste diante dos espinhos, pois sabe que a casa firme resiste e acolhe. E quando a noite chegar, que a chama do Espírito encontre em nós lugar aceso, para que, como templos vivos, possamos cantar baixinho: santo é o Senhor, Ele está aqui, Ele faz novas todas as coisas.

 

terça-feira, 21 de outubro de 2025

HOMILIA PARA O DIA 02 DE NOVEMBRO - DIA DE FINADOS

 

EU CREIO NA RESSURREIÇÃO DOS MORTOS

Amados irmãos e irmãs, ouvimos com o coração aberto a voz de Deus que nos chega pela vida de Jó. No meio da dor, quando tudo parecia perdido, ele declarou: “Eu sei que o meu Redentor vive.” Essa palavra é luz para quem atravessa a noite do sofrimento. Jó não negou a tristeza, não fingiu que não doía; mas segurou-se na certeza de que Deus é maior que qualquer tempestade. Assim também nós: quando o cansaço aperta, quando faltam respostas, quando a injustiça parece vencer, recordamos que o Senhor não nos abandona. Ele é fiel. A fé de Jó não foi um sentimento passageiro, mas uma decisão de confiar, passo a passo, mesmo sem entender. Que essa confiança nos visite hoje e nos sustente no caminho.

O Evangelho nos chama à vigilância: “Estejam com os cintos nas cinturas e acesas as suas lâmpadas.” A vinda do Senhor é  como um dono de casa que pode chegar a qualquer hora, da noite ou da madrugada. Estar preparado não é viver com medo; é viver com amor vigilante. É manter a lâmpada da fé alimentada com o óleo da oração, da caridade, do perdão e da esperança. Quem ama, espera acordado; quem crê, cuida dos pequenos detalhes de cada dia como quem prepara a casa para um querido hóspede. O Senhor virá. Não sabemos quando, mas sabemos que virá. Feliz o servo que Ele encontrar de pé, com as mãos ocupadas no bem e o coração caloroso pela confiança.

A fé de Jó nos ensina que Deus é nosso Redentor, Aquele que defende nossa causa quando ninguém mais nos escuta. Essa fé não é teoria difícil: é pão para a mesa do simples, água para o sedento de sentido. É dizer, pela manhã: “Senhor, nas Tuas mãos coloco meu dia.” E, à noite: “Obrigado, porque estiveste comigo.” É pedir perdão quando falhamos e estender a mão quando alguém tropeça. É acender uma vela no escuro do mundo com um gesto de espera. Quando cuidamos de quem sofre, quando partilhamos o pouco que temos, quando rezamos pelos que nos perseguem, nossa lâmpada permanece acesa. E, se o Senhor vier nesse instante, nos encontraremos vigiando com o coração em paz.

Vigiar é também cuidar das palavras e dos pensamentos. É não deixar que a murmuração apague a chama da esperança, que a mágoa roube a alegria, que a pressa nos distraia do essencial. O servo vigilante sabe que cada encontro é uma visita de Deus e cada tarefa, um altar. Nas pequenas fidelidades de cada dia, o Senhor se revela: na paciência com a família, no trabalho honesto, na escuta atenta, no silêncio que ora. Se cairmos, levantemos; se desanimarmos, voltemos ao Senhor. Ele não se cansa de nós. A visão cristã é humilde: aprenda, recomeça, peça ajuda. E, assim, a fé de Jó floresce em nossos passos, sem barulho, mas com firmeza.

Por isso, irmãos e irmãs, conservamos as lâmpadas da fé e da esperança acesas. Como Jó, proclamamos: nosso Redentor vive e, no fim, Ele se levantará em nosso favor. Vivamos como quem espera o Amado que pode chegar a qualquer momento. Que nossas casas sejam lugares de oração, nossas mãos, instrumentos de paz, e nossos olhos, atentos aos sinais do Reino. Quando o Senhor vier — e Ele virá —, que nos encontre preparados, não por medo do castigo, mas por desejo de comunhão. Que Ele nos encontre perdoando, alegrando, confiando. E que a vitória do Deus vivo fortaleça os cansados, console os aflitos e confirme em todos nós a fé que atravessa a noite e amanhece em luz. Amém.

 

HOMILIA PARA O DIA 01 DE NOVEMBRO 2025 - SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS

 

SANTIDADE AO PÉ DA PORTA

Sob a luz do Cordeiro que vive e reina, elevamos nossos olhos ao horizonte da esperança, onde um anjo se levanta do nascente trazendo o selo de Deus vivo, e a terra inteira suspira diante do mistério. Vemos, com o olhar purificado pela fé, aquela multidão imensa que ninguém pode contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, vestida de branco e com palmas nas mãos. Eles não são estranhos a nós: são irmãos e irmãs que atravessaram as tribulações da vida, lavando suas vestes no sangue do Cordeiro. A santidade não é distante nem rara: é a herança prometida, o selo gravado na frente dos que pertencem a Deus. Hoje somos chamados a considerar que a vocação à santidade é dom e caminho, graça e resposta, início e destino para todos.

E, quando o Senhor se senta no monte e abre a boca, sua voz corre como brisa mansa e como fogo que purifica. “Bem-aventurados” — proclama —, e cada bem-aventurança é um degrau para o céu e um sulco de misericórdia sobre a terra. Felizes os pobres em espírito: neles Deus faz morada. Felizes os mansos: neles a terra encontra descanso. Felizes os que choram: neles a consolação desce como orvalho. Felizes os que têm fome e sede de justiça: neles a promessa já começa a frutificar. Felizes os misericordiosos, os puros de coração, os que promovem a paz, os perseguidos por causa da justiça: neles o Reino se mostra vivo. As bem-aventuranças são o retrato do Santo por excelência, e o espelho onde cada discípulo aprende a forma do amor.

Por isso, não vamos imaginar que a santidade é privilégio de Poucos, nem a escondamos em pedestais inalcançáveis. A santidade é “Santidade ao pé da porta”, como nos recorda o Papa Francisco: é a luz que acendemos na cozinha ao amanhecer, é o perdão sussurrado no corredor de casa, é a paciência no trânsito, o gesto silencioso de quem partilha o pão, a mão estendida  a quem ficou para trás. É a mãe que consola, o pai que persevera, o jovem que escolhe a verdade, o idoso que oferece sua dor como incenso que sobe. É a fidelidade no pequeno, a retidão no escondido, a alegria humilde que não faz alarde. Assim florescem santos sem trombetas, vencendo o mal com o bem, regando o mundo com pequenos riachos de misericórdia que, juntos, se tornam um grande rio de graça.

Ergamos, então, o coração: diante do trono e do Cordeiro, unidos aos anciãos e aos seres vivos, proclamamos: “A salvação pertence ao nosso Deus!” Se nos sentimos fracos, ele é forte; se nos conhecemos pecadores, ele é o Justo que nos justifica; se nos vemos pequenos, ele nos toma pela mão. A tribulação não será a última palavra, pois o Pastor nos conduzirá às fontes da água viva e enxugará toda lágrima de nossos olhos. Na liturgia da vida, cada dia é altar, cada encontro é oferta, cada cruz é caminho de Páscoa. E, marcados com o selo do Deus vivo, aprendendo a permanência de pé, firmes na esperança, até que a veste branca da graça se torne também a túnica das obras.

Assim, caminhamos sob as bem-aventuranças como sob um céu estrelado, e fazemos do cotidiano um santuário. Que o Espírito nos ensine a arte da “Santidade ao pé da porta”: olhos que veem Cristo no pobre, lábios que bendizem em meio à prova, mãos que constroem a paz, pés que correm ao encontro do irmão. Então, quando uma assembleia se reúne, refletimos no brilho que interage um reflexo da nossa história, tecida de quedas e recomeços, de silêncio e louvor. E ouvimos, enfim, a voz do Cordeiro: “Vinde, benditos de meu Pai.” Até lá, permanecemos no Bem-aventurados do Evangelho, para que, em nós e por nós, a santidade se faça humilde, próxima e fecunda — uma santidade para todos, ao alcance de cada porta.

HOMILIA PARA O DIA 26 DE OUTUBRO DE 2025 -

 

UM DEUS QUE VÊ O CORAÇÃO

Amados irmãos e irmãs, reunidos na escuta da Palavra, bendigamos ao Senhor em todo tempo, porque Sua espera resplandece sobre os humildes. “Bendirei o Senhor Deus em todo o tempo, seu louvor estará sempre em minha boca” (Sl 33/34). Hoje, o Espírito nos convida a contemplar a justiça de Deus, que vê o coração, ergue os abatidos e não se cansa de socorrer os que O invocam com verdade.

O apóstolo Paulo, ao dizer “combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé” (2Tm 4), nos ensina que a coroa da justiça não é prêmio da vaidade, mas dom da fidelidade. É o Senhor quem nos fortalece quando faltam aliados e quando a solidão aperta. Ele esteve com Paulo e o libertou “da boca do leão”. Assim também hoje: onde a exclusão corrói a dignidade e o desprezo fecha portas, o Senhor permanece fiel e nos chama a perseverar na caridade.

No Evangelho, Jesus opõe o fariseu confiante em seus méritos ao publicano que bate no peito e suplica: “Ó Deus, tem piedade de mim, pecador!” (Lc 18). Não é a aparência do culto, mas a verdade do coração que sobe agradável a Deus. Quem se exalta será humilhado; quem se humilha será exaltado. Esta é a chave para discernirmos nossos caminhos diante da chaga da exclusão social: a oração que agrada a Deus é inseparável da justiça que se inclina para o irmão.

O Senhor escuta o clamor do pobre e está perto do coração ferido (Sl 33/34). Se queremos que nosso louvor seja sincero, não podemos fechar os ouvidos ao grito dos descartados, aos corpos invisíveis nas ruas, aos que não têm mesa posta nem palavra ouvida. Uma liturgia que celebramos perde brilho quando a mesa da cidade permanece vazia de equidade. Adorar o Cordeiro é fazer-se próximo de quem não tem mais quem o defende.

A conversão que o Evangelho pede não é apenas mudança de ideias, mas de postura: descer do pedestal, deixar o design das próprias glórias, aprender o caminho da compaixão. O fariseu que habita em nós mede pessoas por performances e esquece que acima de tudo em cada pessoa habita a graça que é dada de  graça. Só quem se sabe devedor da misericórdia pode tornar-se misericordioso, abrindo espaços de inclusão, repartindo pão, voz e oportunidades.

Irmãos e irmãs, combatemos o bom combate onde a exclusão se alimenta: nas estruturas que discriminam, nos preconceitos que se escondem em discursos polidos, na indiferença que normaliza o sofrimento. “O Senhor liberta os justos de todas as angústias” (Sl 33/34): Ele nos envia a ser instrumentos dessa libertação, promovendo políticas de cuidado, práticas comunitárias de acolhida e gestos cotidianos que restituam nome, história e lugar àqueles que muitas vezes não são vistos.

Quando nos faltarem forças, lembremos: “O Senhor esteve a meu lado e me deu forças” (2Tm 4). Na Eucaristia encontramos o alimento para não desistir; no perdão, uma chance de recomeçar; na Palavra, a luz para discernir. Que nossas comunidades sejam casas abertas, onde a oração do público encontre eco e onde cada pessoa, sobretudo a ferida, seja recebida como presença do próprio Cristo.

Que Maria, humilde serva, nos conduza à verdadeira exultação: não a dos que se vangloriam, mas a dos que se autorizam amados e enviados. Que, saindo deste altar, possamos bendizer o Senhor com a vida e ser boa notícia aos pobres. “Quem espera no Senhor não será confundido” (cf. Sl 33/34). A Ele a glória pelos séculos. Amém.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

HOMILIA PARA O DIA 19 DE OUTUBRO DE 2025 -

 

MISSIONÁRIOS DA ESPERANÇA NO CHÃO DA VIDA

Irmãos e irmãs, no coração do mês missionário, a Igreja nos convoca a reavivar o dom da fé, iluminados pela exortação apostólica de Paulo a Timóteo e pela parábola do Senhor sobre a perseverança na oração. “Permanece firme naquilo que aprendeste”, diz o Apóstolo, para que nossas comunidades, enraizadas na Sagrada Escritura, encontrem no sopro do Espírito a coragem de testemunhar. A Palavra de Deus, inspirada é útil para ensinar, corrigir e educar na justiça, sustentar os pés dos enviados e aquecer o ânimo dos que, no trabalho cotidiano, semeiam o Evangelho. Assim, celebrando o Dia Mundial das Missões, suplicamos que a graça nos faça vigilantemente atentos aos sinais de Deus na história e obedientes ao mandato do Senhor.

“Proclama a Palavra,” ressoa a voz apostólica, “insista oportuna ou importunamente, argumente, repreende, aconselha, com toda a paciência e doutrina.” Este é o estilo do discípulo-missionário: não ceder ao cansaço, nem ao cálculo das conveniências, mas deixar-se conduzir pelo tempo de Deus, que é tempo de misericórdia e conversão. Na praça e na casa, nos púlpitos e nas periferias, nas rádios, redes e praças digitais, a Igreja se levanta como sentinela da aurora, oferecendo a todos o pão da Palavra e a consolação dos sacramentos. Onde houver desânimo, que o anúncio reacenda a alegria; onde há confusão, que a doutrina ilumine com caridade; onde houve feridas, que a correção fraterna restaure a verdade que liberta.

A parábola da viúva insistente nos registra que a oração é a respiração da Igreja. Jesus nos diz para “rezar sempre, sem desanimar”. A perseverança da viúva é a lente pela qual contemplamos a fidelidade de Deus e a nossa resposta. Quando a súplica parece não ter eco, é justamente aí que a fé amadureceu, porque a espera nos purifica e nos torna mais semelhantes ao coração de Cristo.

O Senhor, Evangelho, nos fala da viúva que suplica sem cessar, imagem viva da Igreja que ora e trabalha, que clama justiça e não desiste dos pequenos. Nesta perseverança se revela a força da missão: nada interrompe o fluxo da intercessão, nada cala o clamor dos que esperam a salvação. Orar sem desfalecer é a seiva que mantém verde o testemunho; é no segredo  e no diálogo com Deus que a missão encontra a mansidão de “aconselhar com paciência” e a capacidade de “argumentar e repreender” quando a verdade é obscura. Assim, a oração sustenta os passos, unge as palavras e fecunda as obras, para que a semente do Reino germine até em terrenos áridos.

Contudo, o Senhor nos interpela: “Mas o Filho do homem, quando vier, será que ainda vai encontrar fé sobre a terra?” Esta pergunta, gravada como fogo no coração da Igreja, torna-se exame de consciência para cada batizado. Que fé encontrará Ele em nossas famílias, paróquias e comunidades? Encontrará um povo que guarda a Escritura no coração, que celebra com fervor, que serve com generosidade e que não se envergonha do Evangelho? No Dia Mundial das Missões, renovemos o sim sem reservas: sim que se faz caridade, sim que se faz anúncio, sim que se torna esperança para aqueles que vagam na noite. Que nossa resposta seja um coração disponível, uma boca que proclama, mãos que levantam os caídos e pés que correm ao encontro dos que ainda não ouviram a Boa-Nova.

Portanto, amados, à mesa da Palavra e do Altar, recebemos o envio: ide, semeai, consolai, edificai. “Proclama a palavra, insiste oportuna ou importunamente, argumenta, repreende, aconselha, com toda a paciência e doutrina.” Que o Espírito nos dê audácia humilde, línguas de fogo e olhos de compaixão. Que Maria, Estrela da Evangelização, nos conduza com ternura, e que São Paulo e São Timóteo nos inspirem zelo e fidelidade. E, enquanto caminhamos entre consolações e lutas, guardamos viva a chama da súplica perseverante, para que, quando o Filho do homem vier, encontremos entre nós fé ardente, operosa e missionária, para a glória de Deus Pai.

Rezemos, portanto, para que nossa comunidade seja escola de oração perseverante e escritório de comunhão. Que nossos encontros de fé — a Eucaristia, a liturgia das horas, os grupos de oração — nos tornem mais atentos ao clamor do mundo. Rezando juntos, aprendendo a esperar juntos; esperar juntos, aprender a servir; particularmente, tornamo-nos testemunhas da esperança que não decepciona.

Que a Virgem Maria, mulher da escuta e da perseverança, nos ajude a rezar sem cessar, a caminhar em comunhão e a servir com generosidade. E que, alimentados nesta mesa da Palavra e do Pão, saiamos como Igreja missionária: uma só voz que intercede, um só coração que ama, um só povo que testemunha a justiça e a misericórdia do nosso Deus. Amém.

 

 

sábado, 13 de setembro de 2025

HOMILIA PARA O DIA 12 DE OUTUBRO - NOSSA SENHORA APARECIDA

 

APARECIDA MISSIONÁRIA DA ESPERANÇA

A primeira leitura começa com a narrativa de um grande sinal: uma Mulher vestida de sol, coroada de doze estrelas. No coração da Igreja peregrina, essa Mulher é Maria, Missionária da Esperança, que avança entre dores e promessas, guardando em seu seio a Palavra feita carne. Como no Apocalipse, ela permanece de pé diante do dragão dos sofrimentos humanos, não para combater com armas de ferro, mas com a luz mansa da fé que sustenta os que vacilam.

O Menino que ela traz ao mundo é o Senhor da vida, o Cordeiro que vence. Ao gerar Cristo, Maria gera também caminhos de vocação: cada chamado nasce do encontro com Ele. A esperança de que ela comunica não seja fuga, mas envio; não é ilusão, mas certeza de que Deus caminha na história. Por isso, quem se aproxima de Maria reencontra a coragem de dizer “sim” mesmo quando o deserto parece estéril.

Em Caná da Galileia, quando o vinho falta e os corações se envergonham, Maria percebe a necessidade antes de qualquer pedido. Ela se torna intercessora: aproxima a sede humana da fonte divina e, com discreta firmeza, indica o único caminho — “Façam tudo o que Ele lhes disser.” Ali, a vocação dos serventes floresce no simples ato de encher talhas; a aprovação cotidiana se transforma em milagre.

A Missionária da Esperança educa o olhar para ver oportunidades de serviço no ordinário. Em Caná, a água comum é oferecida com confiança, e Deus faz vinho novo. Assim também nas vocações: dons simples, vidas comuns, talentos escondidos — nas mãos de Cristo, por intercessão de Maria, tornam-se sinais abundante para o povo. A esperança vocacional começa quando confiamos o pouco que temos.

Diante do dragão que tenta devorar o que nasce de Deus — dúvidas, medos, tentativas de desistir — Maria guarda e protege. Sua presença materna abre caminhos na terra sedenta, como a terra que ajuda a Mulher no Apocalipse. Ela acolhe os que discernem, sustenta os que hesitam, consola os que sofrem. Com ela, cada chamado aprende a atravessar a prova sem perder a promessa.

Maria interceda para que  nunca falte para a Igreja, para as famílias e para a sociedade o seu vinho: sacerdotes segundo o coração de Cristo, consagrados e consagrados de coração indiviso, leigos e leigas missionários no mundo, famílias que geram vida e fé. Ela pede por corações atentos e por comunidades que reconheçam e cultivem vocações. Seu “faça-se” continua ecoando como semente de futuros “eis-me aqui”.

Por isso, voltamos a ela com confiança: Mulher do sinal e da escuta, ensina-nos a fazer o que Jesus disser. Conduz nossos passos para que a luz da esperança não se apague e a alegria do Evangelho transborde como o vinho novo. Intercede pelas vocações de nossa Igreja: que cada batizado descubra seu lugar, sirva com amor e persevere na missão, até que, com você, cantemos eternamente as maravilhas de Deus.

 

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

HOMILIA PARA O DIA 05 DE OUTUBRO DE 2025

 

DEIXEMOS QUE O DOM DE DEUS CRESÇA EM NÓS

Amados irmãos e irmãs, a Palavra de Deus hoje nos convoca a reavivar o dom que recebemos. São Paulo exorta Timóteo: “Reaviva o dom de Deus que está em você… Deus não nos deu um espírito de covardia, mas de fortaleza, amor e sabedoria” (2Tm 1,6-8). Muitas vezes o desânimo tenta se instalar em nossos corações, diminuindo  a chama da fé e esfriando o ardor da caridade. A liturgia nos recorda: não caminhamos movidos pelo medo, mas sustentados pela graça que recebemos no Batismo e confirmados pela unção do Espírito Santo.

No Evangelho, os apóstolos suplicam: “Aumenta-nos a fé!” (Lc 17,5). É a oração dos que confirmam a própria fragilidade e, ao mesmo tempo, querem confiar mais. Jesus responde com a imagem do grão de mostarda, lembrando que a fé, ainda que pequena, quando genuína e obediente, realiza o impossível. Não se trata de grandezas humanas, mas da potência de Deus que envelhece em quem se abandona a Ele. Em tempos de cansaço, peçamos a graça de crer mais do que sentimos, de esperar mais do que vemos.

São Paulo ainda aconselha: “Mantém o modelo das sãs palavras… guarda o bom depósito, com a ajuda do Espírito Santo que habita em nós” (2Tm 1,13-14). O “bom depósito” é a fé da Igreja, tesouro que não inventamos nem nos adaptamos ao sabor do vento, mas que recebemos e transmitimos. Quando a fadiga ameaça, voltamos ao essencial: a Palavra, os sacramentos, a oração fiel de cada dia. É aí que o Espírito nos fortalece, reacendendo em nós a coragem de testemunhar sem medo o Evangelho.

Jesus também nos educa para a humildade do serviço: “Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer” (Lc 17,10). Não é auto depreciação, mas pureza de intenção: servir sem buscar méritos, amar sem contabilizar resultados, obedecer sem negociar. O desânimo muitas vezes nasce da expectativa de aplausos ou de frutos imediatos. O Senhor nos ensina a alegria do dever cumprido na presença do Pai, onde a fidelidade vale mais que a visibilidade, e a perseverança pesa mais que o sucesso.

Irmãos e irmãs, reavivemos o dom, peçamos fé e sirvamos  com humildade nos encontremos como irmãos na Eucaristia que celebramos. Aqui, Cristo nos dá o Espírito de fortaleza; aqui, nossa fé é alimentada com a Palavra e com o Corpo do Senhor; aqui, aprendemos a lógica do serviço: “Isto é o meu corpo, entregue por vocês.” Ao comungarmos, levemos para uma semana a decisão concreta de um passo a mais: retomar a oração, reconciliar-se, perseverar numa missão, visitar quem sofre, recomeçar o que foi deixado para trás.

Supliquemos, então: Senhor, aumenta-nos a fé! Reacende em nós o dom do teu Espírito. Livra-nos do medo paralisante e do desânimo que divide o coração. Ensina-nos a guardar o bom depósito com amor e coragem, e a servir sem buscar recompensas. Que Maria, mulher fiel, nos acompanhe no caminho, para que, firmes na esperança, façamos apenas e tudo aquilo que devemos fazer, para sua glória e para a salvação dos irmãos. Amém.

 

HOMILIA PARA O DIA 28 DE SETEMBRO DE 2025

 

PEREGRINAR NA PARTILHA E NA COMUNHÃO

Irmãos e irmãs, bendito seja o Senhor que faz justiça aos oprimidos, dá pão aos famintos, abre os olhos aos cegos e sustenta quem vacila. O Deus do Salmo nos visita no terreiro da vida, no fogão a lenha das casas simples, e ali derrama misericórdia. Ele não esquece o pobre, não abandona a viúva, não deixa órfão sem colo. Seu reino não é distante: começa onde a mão se estende e o coração se reparte.

Recordemos, o chamado do Evangelho: havia um homem vestido de luxo e, à sua porta, um Lázaro ferido, esperando migalhas. A Palavra nos atravessa como arado em terra dura: de que vale a fartura que não vira mesa partilhada? De que vale o portão fechado quando o irmão jaz do lado de fora? O Senhor nos alerta para que não fechemos o ouvido nem neguemos afeto; hoje é o tempo favorável, hoje é o dia da conversão.

Como Igreja peregrina, sejamos sinodais: caminhemos juntos, povo e pastores, jovens e idosos, homens e mulheres, ouvindo o Espírito que fala no clamor dos pequenos. Sinodalidade é roda de conversa mediado pelo chimarrão, é conselho que acolhe a voz de quem quase nunca fala, é decisão tomada em oração e em mutirão. Onde todos têm lugar, o Corpo de Cristo floresce; onde cada dom é acolhido, o Evangelho cria raízes.

Peregrina de esperança, nossa Igreja aprende a esperar trabalhando: plantando sementes e justiça, colhendo frutos e reconciliação. A esperança se faz na panela partilhada, na visita ao enfermo, na carona ao vizinho, na catequese que escuta, no grupo que reza e ilumina. O Deus que levanta os caídos nos envia às encruzilhadas do cotidiano, para acender lamparinas em noites de desânimo e para cantar salmos quando o chão parece faltar.

Não deixemos que a tragédia do rico do Evangelho vire nosso espelho; que a nossa casa tenha porta aberta, cadeira a mais, prato que se multiplica. Que a comunidade seja hospital de porta aberta, onde a dor encontra cuidado e o pecado encontra perdão. Que a Eucaristia celebrada no altar continue na partilha do quintal, e que o “ide em paz” no final da missa seja ponte entre o céu e a estrada de terra.

Louvado seja o Senhor para sempre: Ele reina de geração em geração. Conceda-nos, Pai de espera, ser uma Igreja sinodal e peregrina, que escuta, discerne e serve. Que Maria, mulher da estrada, nos acompanhe; que São José, homem do trabalho, nos inspira; e que, sustentados pelo Espírito, reconheçamos em cada Lázaro o próprio Cristo. Amém.

 

HOMILIA PARA O DIA 21 DE SETEMBRO DE 2025

NÃO SE PODE SERVIR A DOIS SENHORES

O profeta ergue a voz contra balanças desonestas e artimanhas que esmagam os pequenos. A Palavra denuncia a tentativa de transformar tudo em mercadorias, até o tempo sagrado e a dignidade humana. Diante disso, nosso coração está convidado a um exame: onde estão nossas medidas, nossas prioridades, nossos afetos? Peregrinos de esperança, não acumulamos injustiça no alforje; carregamos a justiça como bússola e a misericórdia como provisão diária.

No Evangelho, um administrador astuto desperta a pergunta sobre a verdadeira riqueza. Jesus não louva a fraude, mas a esperança de quem percebe o tempo oportuno e age com decisão. Se somos fiéis no pouco, aprendendo a administrar o muito que Deus nos confia: relações, dons, criação, comunidades. Em sinodalidade, discernimos juntos o que fazer com os bens do Reino, para que nenhum irmão fique à margem do caminho.

Entre denúncia e discernimento, nasce uma conversão concreta: reorientar o uso do poder, do dinheiro e da influência para o serviço. A esperança do Reino é uma caridade criativa, capaz de abrir portas, reduzir dívidas impagáveis, curar feridas antigas. Caminhar assim é escolher o Senhor e não as riquezas; é transformar recursos em pontes e não em muros. A esperança se torna visível quando a justiça se torna prática cotidiana.

Ser peregrinos de esperança é aceitar que o caminho se faz com outros, no passo do mais frágil. Sinodalidade não é estratégia, é estilo: escutar, dialogar, reconciliar, repartir. Quando o povo de Deus caminha junto, a astúcia do Evangelho se torna sabedoria comunitária, a profecia de Amós ganha carne nas decisões comuns que protegem os pequenos e honram o tempo de Deus.

Ao final, fica a escolha: a quem serviremos no trajeto? Se deixamos que a Palavra afine nossas balanças e que o Espírito conduza nossos passos, a estrada se ilumina. Como comunidade em marcha, administramos com fidelidade o que recebemos, denunciamos o que desumaniza e geramos sinais do Reino. E assim, passo a passo, a esperança deixa de ser slogan e se torna companhia fiel de peregrinos que caminham em sinodalidade.

  

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

HOMILIA PARA O DIA 14 DE SETEMBRO DE 2025 - EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ

 

A força que se faz serviço: o coração do Evangelho

Nos primeiros anos do anúncio cristão, ecoa a visão de que Jesus, embora sendo de condição divina, não se agarrou a privilégios, mas esvaziou-se, assumindo uma forma de servo e aproximando-se de cada pessoa com humildade. Sua missão não foi de dominar, mas de salvar: entrar na história humana para curar feridas, reconciliar o que estava quebrado e iluminar caminhos obscuros pelo medo e pela culpa. Ao caminhar entre os pobres, tocar os doentes e conversar com os que foram rejeitados, ele mostrou que a verdadeira grandeza não se mede por tronos, mas pela compaixão que se inclina para levantar o outro. Nesse gesto de despojamento, seu “sim” ao Pai tornou-se um convite permanente à esperança: ninguém está longe demais, ninguém é pequeno demais para ser realizado pelo amor.

Essa missão mudou o foco e as pessoas puderam sentir que em lugar de suas dores existem alegrias, em lugar de limites existem sonhos. Ele não se apresentou como um superior que aponta falhas de longe, mas como quem caminha junto, partilha o pão e lava os pés. Sua autoridade nasceu do serviço, e sua palavra ganhou força porque foi confirmada por gestos concretos de cuidado. Ao olhar cada pessoa com dignidade, Jesus desarmava a lógica da competição e da vaidade, ensinando que a vida plena floresce quando deixamos o ego para abraçar o outro. Assim, a salvação não aparece como uma fuga do mundo, mas como uma transformação do coração que refaz laços e dá novo sentido à existência.

Seguir esse Cristo humilde é também aprender a não olhar para trás como quem já chegou, mas conscientes de que estamos a caminho. Há uma meta futura — a plenitude do amor — e, para alcançá-la, é preciso esquecer o peso do passado que paralisa e estender-se para o que vem, renovando diariamente a disposição de amar. O percurso da fé não é uma corrida de vaidades, mas uma peregrinação em que cada passo, por menor que seja, se torna resposta ao chamado de servir. A salvação que Jesus oferece abre um horizonte onde as quedas não definem destinos, e onde recomeçar e sempre  sinal da graça presente no cotidiano.

Nessa estrada, não caminhamos sozinhos: há irmãos e irmãs que nos inspiram e nos corrigem, mestres que apontam a direção, comunidades que sustentam a esperança. Inspirados pelo exemplo de Cristo, somos convidados a imitar aqueles que vivem a mesma lógica do serviço, evitando comparações que geram soberba. Crescer na fé é aprender a considerar nos outros um espelho do amor de Deus, compartilhar dons, suportar fragilidades e celebrar conquistas em comum. A missão de Jesus, vivida em nós, transforma diferenças e faz da convivência um espaço de salvação que se manifesta em gestos simples: escutar, perdoar, repartir.

Por fim, afirmar que Jesus veio salvar o mundo sem se considerar superior é proclamar que o centro do Evangelho é o amor que se abaixa para erguer. Ele mostra que a verdadeira força é a do serviço, a verdadeira glória é a do cuidado, e a verdadeira sabedoria é a da humildade que se faz próxima. Quando acolhemos essa lógica, nossa vida também se torna boa notícia: nossas escolhas passam a refletir o coração de Cristo, e nossa presença no mundo, por menor que pareça, torna-se semente de paz. Assim, a missão de Jesus continua, não como imposição, mas como convite: deixe-se amar, amar de volta e, nesse fluxo de graça, colabore para que toda pessoa descubra sua dignidade e sua esperança.

 

domingo, 24 de agosto de 2025

HOMILIA PARA O DIA 07 DE SETEMBRO DE 2025 - 23º DOMINGO COMUM

 

Caros irmãos e irmãs,

Estamos nos encaminhando para a culminância das celebrações do Ano Santo da Redenção, somos convidados a revisitar a misericórdia de Deus que liberta, reconcilia e transforma. A liturgia de hoje nos oferece dois textos que embora pareçam dialogar com situações muito concretas do tempo de Paulo e de Jesus, eles apontam para uma mesma lógica: a graça de Deus não se contenta em perdoar; ela reconstitui relações, costura comunidades e nos chama a um discipulado ao mesmo tempo exigente e libertador.

Na leitura Paulo se dirige a sua comunidade, com um amor que ultrapassa estruturas humanas de poder. O apóstolo prisioneiro por causa do Evangelho não apenas pede pela libertação de Onésimo — que lhe foi confiado como escravo —, mas insiste para que o retorno dele seja vívido como uma verdadeira reconciliação: que Filêmon receba Onésimo não como escravo, mas como irmão querido no Senhor. Paulo não minimiza o dano ou a vergonha possível; ele, ao contrário, aponta para uma mudança de lógica, na qual a dignidade de cada pessoa é encontrada e reafirmada unicamente em Cristo. Aqui se revela uma obra de redenção sutil, mas radical: não há espaço para manter alguém à margem como propriedade; toda pessoa é chamada a pertencer plenamente à família de Deus, onde o perdão reordena relações e onde a graça transforma predileções, ressentimentos e posições.

O texto do Evangelho escrito por Lucas reforça as exigências do seguimento. Jesus não apresenta um evangelho de conveniência, de adesão fácil ou de promessa garantida. Ele chama seus discípulos a renunciar a tudo que possa tornar-se obstáculo entre eles e o Reino — pai, mãe, riquezas, planos de vida que não passam pelo amor radical de Deus. Antes de seguir, é preciso contar o preço: o discipulado exige decisão e renúncia, tomar a cruz e caminhar com Jesus. Não se trata de um sacrifício externo meramente, mas de uma transformação interior que reorganiza prioridades — até mesmo as mais caras — em função do projeto de Deus. Esse é o caminho que guarda a liberdade verdadeira: não a liberdade para fazer o que se quer, mas a liberdade para amar sem reservas, para perdoar sem limites, para abrir as portas da vida a quem nos é confiado pelo Senhor.

O jubileu é, em si, uma memória ativa da misericórdia que restaura, perdoa dívidas, devolve o essencial à justiça e restitui a dignidade de quem é esmagado pela injustiça. O Ano da Redenção chama a Igreja e cada comunidade a experimentar a libertação que vem de Cristo: liberta-se o cativo, restitui-se a dignidade de cada pessoa diante de Deus, reconstitui-se a família humana em Cristo. Assim, a passagem de Onésimo de escravo a irmão em Cristo não é apenas uma mudança de estatuto social, mas a antecipação de uma realidade onde há Cristo, há uma só família; onde há graça, há reconciliação que desfaz muros e dívida que não é mais dívida entre pessoas, mas memória de perdão recebido e oferecido.

Diante disso, o que pode significar para nós, enquanto Igreja, neste Ano Santo da Redenção? Que cada um de nós seja portador de reconciliação: na família, entre vizinhos, na comunidade, entre estranhos que nos pedem acolhimento. Que não tratemos as pessoas como instrumentos ou como obstáculos, mas como irmãos e irmãs, filhos do mesmo Deus que nos amou primeiro. Que saibamos reconhecer que seguir a Cristo implica custo, mas também nos liberta do peso de uma vida centrada em nós mesmos. E que, como comunidade, sejamos sinais vivos da redenção: acolhendo o retorno de quem se atrasou, perdoando quem nos feriu e abrindo as portas da igreja para todos.

Oremos para que o Espírito nos conceda a graça de viver, neste Ano Santo da Redenção, a reconciliação que transforma, o perdão que liberta e a fidelidade que, mesmo custando algo, nos aproxima cada vez mais de Jesus, o Redentor.

Que Deus abençoe a todos. Amém.

 

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

HOMILIA PARA O DIA 31 DE AGOSTO DE 2025 - 22º DOMINGO COMUM - DIA DOS CATEQUISTAS

 

O Ministério da Catequese:

Servindo com Humildade e Gratidão

No evangelho desse domingo, Jesus nos convida a aprender d'Ele, que é "manso e humilde de coração". Esse chamado nos faz refletir sobre a essência do ministério da catequese nas comunidades, um serviço que não se baseia em status ou prestígio, mas na disposição de se colocar nos últimos lugares, como Jesus fez ao servir aos mais excluídos e marginalizados.

A catequese, é uma jornada de crescimento na fé, que busca não apenas transmitir conhecimento, mas cultivar a espiritualidade e a vivência do evangelho. Os catequistas, como verdadeiros servos, são aqueles que se sentam nas últimas fileiras e acolhem a todos com amor e sinceridade. Eles entendem que o verdadeiro ensino vem da experiência de ser companheiro de caminhada do outro, reconhecendo que cada pessoa é única e preciosa.

Este ministério é encarado como uma festa, onde todos são convidados, especialmente aqueles que, por diversas razões, foram deixados para trás. Assim, os catequistas têm a missão de promover um ambiente inclusivo, onde cada um se sinta a vontade para partilhar suas dúvidas, medos e esperanças. Ao ocupar os últimos lugares, os catequistas mostram humildade, colocando-se ao lado dos que mais precisam de amor e orientações.

Gratidão é um elemento fundamental nesse chamado ao serviço. Os catequistas são convidados a refletir sobre o privilégio que é participar da festa da fé. A gratidão por serem escolhidos para essa missão os impulsiona a buscar sempre o melhor para seus catequizandos, preparando-os para que também eles possam um dia convidar outros ao banquete da vida cristã.

Além disso, essa atitude de humildade e gratidão transforma a dinâmica das comunidades. Ao valorizarmos a importância de cada voz e cada história, promovemos um espaço de acolhimento que ressoa com a mensagem de Jesus. A catequese, assim, se torna um meio de formação integral, onde a fé é vivida e compartilhada, e não apenas doutrinada.

Em suma, o ministério da catequese é um chamado à humildade, à gratidão e ao serviço abnegado. Ao se colocar nos últimos lugares, o catequista não apenas imita Cristo, mas também abre as portas para que outros possam entrar na festa da fé. Essa é uma missão que transcende o simples ato de ensinar; é uma expressão do amor de Deus que, por meio da gratidão e da humildade, transforma vidas e comunidades. Que cada catequista continue a caminhar humildemente, reconhecendo que é um convite para ser parte desta bela celebração chamada vida em Cristo.